Marcos D'Paula/AE
Marcos D'Paula/AE

A nova cara da velha sinfônica

Desde dezembro sem tocar para o público, grupo se revela bem mais jovem

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

Uma Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) de feições novas, mais jovem e mutilada, abriu sua temporada 2011 anteontem no Teatro Municipal do Rio, numa noite curta e sem contratempos. Ou quase. Logo no início do concerto, uma moça, descontente com a demissão de parte da orquestra há quatro meses, berrou: "É isso aí!" Foi repreendida com um sonoro "Cala a boca!" vindo de outro canto do teatro.

Foi uma manifestação solitária. O público que ocupou quase 80% dos assentos do Municipal estava nitidamente feliz por rever o mais tradicional conjunto sinfônico do País, ao qual não assistia desde dezembro de 2010 - à exceção de assinantes e amigos, que tiveram uma apresentação privilegiada há três semanas.

Embora a opinião geral era de que a abertura do Festival Beethoven - de pouco mais de uma hora, e sem o tradicional bis - não teve brilho, os cerca de 1.700 presentes, saudosos e curiosos, aplaudiam os músicos longamente. O palco, comandado pelo maestro norte-americano convidado Lorin Maazel, parecia grande demais para os 58 músicos - a OSB tinha 85 antes das dispensas.

Fora dele, o regente titular da OSB, Roberto Minczuk, comemorava: "Estou muito feliz, ainda mais com a presença do Maazel, que é um dos maiores maestros do mundo", ele disse, desvencilhando-se rapidamente da reportagem. Minczuk, que não é visto desde que a crise recrudesceu, está bem mais magro. "Perdi uns três quilinhos", brincou.

À esquerda de Maazel, onde por 34 anos se sentara Michel Bessler, hoje afastado, estava o spalla Mauricio Aguiar, primeiro violino da Sinfônica de Cincinnati - um dos Ronaldinhos que Minczuk desejava repatriar para a nova fase da OSB, como declarou em março.

Aguiar foi chamado temporariamente, enquanto o spalla holandês Bart Vandenbogaerde não recebe seu visto de trabalho, travado (como o de outros onze instrumentistas estrangeiros) pelo Ministério do Trabalho. O órgão é mediador das negociações, ainda em andamento, entre a Fundação OSB e os ex-integrantes, que se recusaram a passar por uma avaliação de desempenho que consideram desrespeitosa.

"Sou assinante desde os anos 70 e estou francamente a favor do Minczuk. Ele só melhorou a OSB. Antes dele, a situação estava tão ruim que às vezes os músicos não conseguiam acompanhar os solistas de fora", dizia Leda Monteiro Bastos, uma das muitas senhoras que vestiram suas melhores roupas para ouvir a primeira sinfonia, a curtinha Abertura de Egmont e o Concerto Para Piano Nº 3 em dó menor.

"Acompanhei de longe a crise e quero muito que a OSB se recupere", ponderava a pianista Vera Bertucci Soares, que, aos 95 anos, foi conferir a apresentação da pianista ucraniana Valentina Lisitsa, substituta de Nelson Freire - o pianista cancelou sua participação em solidariedade aos músicos demitidos.

Longe do Municipal, eles usaram o Facebook para demonstrar sua revolta. Chamam o grupo atual de "falsa OSB" e atacam a postura de Maazel, que aceitou vir reger o festival num momento em que vários artistas preferem se manter a distância.

As conversas com a FOSB continuam e podem resultar na reintegração deles, mas sem a regência de Minczuk, com o qual não aceitam mais trabalhar.

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