A noite em que cada nota soou rara

Regente Langrée pegou Nelson Freire em estado de graça

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2011 | 00h00

Os ingressos esgotaram-se assim que o público soube que Nelson Freire substituiria o inglês Steven Osborne no concerto da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) de anteontem na Sala São Paulo. Nelson está mesmo em estado de graça. Cada nota, cada frase - tudo, em seu piano, soa raro. O modo como alternava rubatos nos trechos de piano solo e a sincronização com a orquestra nos tutti no concerto de Schumann foi memorável. E o extra? Uma emocionante execução da Arabeske opus 18, onde Robert, com saudades de Clara, embute o nome da amada numa quinta descendente.

Dois fatores inverteram com êxito o curso natural da noite. Primeiro, o notável talento do regente francês Louis Langrée. Foi irretocável na Abertura Trágica de Brahms e em Schumann - afinal, ele regeu Nelson no Concerto no. 4 de Beethoven há pouco no Festival Mostly Mozart, de Nova York. E, de outro lado, colocar o poema sinfônico Pelleas et Melisande, de Schoenberg, na primeira parte. Foi aí que Langrée esbanjou competência numa partitura diabolicamente difícil ("perto dela", disse Zemlinsky, parceiro e amigo de Schoenberg, Vida de Herói de Richard Strauss parece brincadeira de criança").

Sua regência sempre clara e bem articulada ressaltou a novidade desta obra, que quebra a espinha dorsal de uma música bem comportada. Primeiro pela duração. Em 40 minutos num só movimento, pratica uma densa polifonia, apoia-se em acordes de quarta e escalas de tons inteiros. Pelleas estreou com Schoenberg pela primeira vez no pódio, no segundo concerto da Associação dos Compositores de Viena, fundada em outubro de 1904 por Schoenberg e Zemlinsky, que tinha o então todo-poderoso diretor da Ópera Mahler como presidente honorário. Os críticos reclamaram, na estreia, que havia dissonâncias demais. A sensação é provocada pela raridade de cadências perfeitas, aquelas que apaziguam os ouvidos. A tensão é permanente, e não se resolve. Schoenberg dizia, brincando, que "um acorde de dó maior é um efeito sinfônico especial, do qual não se pode abusar, e que só pode ser empregado com cuidadosa preparação."

Louis Langrée destacou com justiça, sob aplausos, as madeiras da Osesp, que são expostas de modo implacável em Pelleas. Um concerto memorável, que de novo coloca o clímax na primeira parte. Só que agora acertadamente.

ÓTIMO

OSESP

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, Campos Elísios, tel. 3223-3966. Hoje, às 16h30.

R$ 24/R$ 135. www.osesp.art.br.

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