A noite do piano

Em programa especial, Krystian Järvi rege Prokofiev, Bernstein e Rachmaninov

O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h07

Os três compositores que tiveram obras executadas anteontem na Sala São Paulo pela Osesp magnificamente regida por Krystian Järvi têm em comum o piano. Todos foram excepcionais pianistas. Prokofiev menos, mas Bernstein e Rachmaninov foram menosprezados como compositores por causa do talento pianístico superlativo (no caso do primeiro, a regência ofuscou até o pianista). O norte-americano sofreu demais durante sua vida inteira, até porque além dos talentos de pianista, maestro e compositor, também triunfou na Broadway.

Vamos por partes. Os dois russos até hoje são escada para as novíssimas gerações de virtuoses se afirmarem nos palcos. Foi o caso da excepcional pianista chinesa Yuja Wang, de 24 anos, responsável por uma formidável leitura do dificílimo Concerto no. 3 de Prokofiev. Ela repetiu a cor vermelha no vestido discreto que usou aqui (fizeram furor, recentemente, um vestido vermelho tipo minissaia que usou no Hollywood Bowl e uma microssaia no Festival de Santa Fé).

O terceiro de Prokofiev é obra cativa de Martha Argerich, que fez dele seu passaporte para a fama. Pois Yuja, apesar de miudinha, tem um 'punch' surpreendente, técnica superlativa e esbanjou entrosamento com Järvi e a orquestra. Uma performance digna de Martha. No extra, tocou a Dança dos Espíritos de Gluck (minha suspeita virou certeza: todos os que tocam na Sala são avisados de que este é o extra preferido de Nelson Freire).

Já em Prokofiev há um pulso regular forte e sempre presente que não escancara, mas evoca a dança. O gênero assume os títulos das duas obras restantes. Na abertura, três danças do musical On the Town, que Bernstein compôs para a Broadway em 1944. É notável como ele toma os temas que compôs para o musical e os transforma em passeios sinfônicos de enorme vitalidade. Seu domínio sobre a escrita orquestral não tem limites - e aí está a diferença entre arremedos populistas e música sinfônica que brinca com tinturas jazzísticas e populares.

É o caso, igualmente, das inacreditáveis Danças Sinfônicas de Rachmaninov. Ele faz o que quer com a orquestra. Por isso, virou matriz dos criadores de trilhas de cinema em Hollywood. Dos três, foi quem mais sofreu preconceito como compositor. Formidável pianista, fazia todo tipo de concessões: paráfrases, variações, transcrições... Costumava tocar só 24 das 32 variações de Beethoven em dó menor porque cansavam o público. Fazia isso até com suas próprias obras. E com um sucesso danado. Como compositor, foi malhado pelas vanguardas. O fato é que o mundo musical não aceita que um artista seja igualmente genial regendo, tocando piano e compondo. Certo estava Bernard Shaw, que também foi crítico musical: sugeriu ao pianista-compositor Ferruccio Busoni, um dos maiores virtuoses, que assinasse suas composições com pseudônimo - única maneira de vê-las julgadas com isenção.

Houve um variado desfile de dezenas de maestros só este ano na Sala São Paulo. Krystian Järvi, que em 2010 já encantara regendo a Sagração da Primavera, desta vez confirmou que é a melhor batuta que passou por aquele pódio em 2011. Claro, articulado, pratica uma regência elegante que não se esgota no gesto para o público. Modela as frases com um cuidado raro. Ritardandos e retomadas do tempo precisos, que prendem a atenção de quem ouve. Os músicos estavam visivelmente entusiasmados em fazer música com ele. É assim que se constroem grandes interpretações.

Crítica

João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

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