A noite do cabrito

Há pouco o professor Antônio Pedro (Tota) me convidou para jantar na casa dele. "Vai ser legal", garantiu. "Vou fazer um cabrito."

Matthew Shirts, matthew.shirts@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

O professor, para quem não conhece, gosta de pratos que demoram dias para preparar. São animais de porte médio, em geral. As carnes precisam ser marinadas em temperos e verduras que ele mesmo planta e colhe no sítio, em Atibaia. O processo de cozimento é sempre em fogo baixo em panelas de grande peso.

O convite era para um dia no meio de semana. Eu estava ocupado, mas não queria perder o cabrito e a discussão, que tende a girar em torno da influência de Nelson Rockefeller na história do Brasil, pelo menos no começo da noite. Perguntei a que horas começaria o jantar e ele respondeu: "Venha lá pelas 8."

Como falei, tinha mil coisas para fazer. Respondi, sem educação, mas com certa lucidez: "Professor, 8 horas não existe. A que horas vai começar de verdade?"

É que, como você talvez já saiba, norte-americano, mesmo aqueles como eu que vivem há décadas no mundo ibero-americano, são meio literais com essa questão de horário. Não temos a flexibilidade mental para lidar com a riqueza de nuances do tempo nos trópicos. Como o Tota é meu amigo há mais de 30 anos, tenho essa liberdade de me expressar com ele.

Enquanto aguardava sua resposta ao telefone, tive uma epifania: 8 horas da noite não existe no Brasil. De verdade. Pense nisso. Nada acontece nesse horário, fora a mudança da bandeira de táxi, mais pontual do que o Big Ben. Nenhum jantar começa às 8 horas. Nenhum jantar começa às 8, nenhuma reunião, muito menos uma festa. Nem mesmo a novela das 8 começa às 8 horas da noite.

Esta é uma questão que me persegue há anos, aliás. Por que é que a novela das 8 começa às 9, 9 e pouco? Ninguém é capaz de responder. Desconfio que nem mesmo Roberto DaMatta sabe. É um mistério. Na noite do cabrito, desliguei o telefone e perguntei mais uma vez para minha mulher Luli. A discussão entre nós é recorrente agora que a novela é de Silvio de Abreu:

- Mas por que não a chama de novela das 9 de uma vez?

- Porque é a novela das 8.

- Mas começa às 9.

- E daí?

- Não lhe parece uma certa incongruência? Você não percebe ali uma lacuna entre o significante e o significado, para usar a linguagem dos seus tempos na Universidade de São Paulo? (Isso aí eu falo só para provocar, confesso).

- Primeiro, vai tomar banho, antes que eu esqueça. Segundo, a resposta à sua pergunta é não: não há incongruência nenhuma. É você que não entende. Americano é pior que português (ou seja, mais literal).

Nesse momento, nosso filho de 7 anos, Samuel, perguntou se estávamos brigando por causa de novela. Ninguém quis responder. Recebi um daqueles olhares de "tá vendo?"

- Me deixe em paz com minha novela, gente, pelo amor de Deus. Filho, querido, papai vai ler uma história agora para você, porque já é tarde. Dê um beijo na mamãe e escove os dentes antes de entrar debaixo das cobertas.

Tive vontade de fazer uma observação: que o avançado da hora confirmava minha tese. Eram mais de 10 horas e a novela ainda rolava solta. Mas achei melhor não. Você entende.

Levei o Sammy para escovar os dentes e coloquei-o na cama. Li um capítulo de Como Treinar Seu Dragão e ele dormiu.

Saí a pé para a casa do professor, que é logo ali do outro lado da Sumaré. O cabrito, delicioso, diga-se, estava saindo do forno. Perguntei para o professor, que é estudioso, afinal, se ele não concordava com a ideia de que 8 horas da noite não existe no Brasil, era uma espécie de buraco negro no espaço do tempo do País.

- É uma ideia interessante, disse, enquanto me servia do cabrito. E nada mais falou sobre o assunto.H

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