A nobreza simples e serena de Arcângelo Ianelli

Poucas horas antes de inaugurar a retrospectiva comemorativa de seus 80 anos, na Pinacoteca do Estado, Arcângelo Ianelli teve um grave acidente vascular cerebral, e está hospitalizado desde então. Mesmo sendo um acontecimento tão triste, é também emblemático da transcendência da arte e da obra de um artista. O homem Ianelli está doente e se confronta - como todos nós - com a dor, a imperfeição e a finitude. Já na Pinacoteca, enquanto isso, o pintor Ianelli goza da mais perfeita saúde e nos conforta com sua arte generosa, feita para gratificar e alegrar quem a contempla.O que primeiro chama a atenção, nos quase 60 anos de produção de Ianelli, é a regularidade absoluta. Não há altos e baixos, nenhum tipo de desnível. Sua pintura definitivamente não piorou com a idade. Isso o torna uma raridade no panorama da arte moderna brasileira já que, como regra, nossos artistas são sempre melhores no começo da carreira e pioram depois. Foi o caso de Anita Malfatti (provavelmente por causa da demolidora crítica de Monteiro Lobato à sua pioneira exposição de 1917), de Di Cavalcanti, de Tarsila, de Rego Monteiro, de Flávio de Carvalho, de Portinari, de Cícero Dias, de Milton Dacosta, e há quem ache que foi o caso, ainda, de Pancetti. Na velhice avançada, até Volpi piorou, pois sua mão não dava mais conta do gesto ritmado e suave com que depositava sobre a tela uma carga exata de pigmento.Mas regularidade na produção será, em si, uma qualidade? Que dizer então dos sabidamente desiguais, a começar por Picasso - de cuja genialidade ninguém duvida? A resposta a seguir pode parecer um jogo de palavras, mas não é: sim nos casos em que sim, não nos casos em que não. Cada artista tem seu modo de se colocar no mundo, a si e a seu trabalho, que pode ser mais articulado e cerebral, mais intuitivo e espontâneo ou mais catártico e exorcista. Por exemplo, Rubem Valentim, Volpi e Iberê Camargo. Dos temperamentos equilibrados e apolíneos, espera-se que seu projeto seja regular, coerente, inteligível - características que o aperfeiçoam e arrematam. Dos temperamentos essencialmente expressivos, esperam-se ao contrário o risco, o salto no escuro, a tormenta; e aí, cabe o erro.A retrospectiva dos 80 anos de Ianelli comprova, mais uma vez, que ele não pertence à família dos possuídos nem nos quer transmitir nenhuma angústia. A linearidade e a organicidade interna de sua evolução são exemplares. Começa, na década de 1940, com uma pintura figurativa tranqüila, em cores suaves, prosaicas paisagens suburbanas e alguns personagens do dia-a-dia. Ninguém apontou ainda a evidência de que, tanto pelos temas quanto pela linguagem, essa pintura de um descendente de imigrantes se encadeia com a dos descendentes de imigrantes da geração anterior: os grupos Santa Helena e Família Artística Paulista, ativos nos anos 30 e 40. Se houve mesmo, nessa época, uma típica pintura paulista proletária, como pretendia Mário de Andrade - caracterizada pela presença dos arrabaldes e pelos tons baixos de verdes, ocres e marrons -, o jovem Arcângelo Ianelli foi um de seus últimos representantes. Coube-lhe estabelecer o elo com a abstração da geração posterior.Já se falou mais de uma vez de seu começo "acadêmico". É uma inexatidão. Seus primeiros estudos podem ter sido acadêmicos, mas deles herdou apenas uma técnica segura, e não um ideal estético. Até seu relativo tradicionalismo, nos primeiros 10 ou 15 anos, constituem também um desdobramento da pintura proletária. Os objetivos dos santa-helenistas e dos membros da Família eram dominar o ofício e dar vazão a um gosto ao mesmo tempo conservador, popular e intimista. Geraldo Ferraz os chamou, um dia, de defensores do carcamanismo artístico da Paulicéia, a morrer de amores pelos processos de Giotto e Cimabue. É meio radical, mas de fato os mestres italianos dos séculos 13 e 14 os interessavam muito mais que toda a vanguarda européia.Data da virada dos anos 50 para os 60 a passagem de Ianelli à abstração - da qual acabou se tornando um mestre consumado. Como para todos os da sua geração, o catalisador foram as primeiras bienais de São Paulo, que encerraram o ciclo modernista, figurativo e nacionalista, introduzindo no Brasil exemplos estrangeiros de pintura abstrata e internacionalizante.Caracteristicamente, Ianelli não foi um dos pioneiros; quase uma década antes, os concretistas já tinham começado a romper com a figura. Sua abstração correspondeu, antes, a uma necessidade interior. Veio como uma conseqüência natural da simplificação e da geometrização da realidade observada. Sabemos que nenhuma obra de arte - mesmo figurativa - constitui um mero simulacro do real. Para Ianelli, a pintura foi sempre uma construção pura de cores e de formas, progressivamente depurada. Nesse ponto, algumas telas figurativas dos fins da década de 50 chegam a ser didáticas. Cortadas em detalhes, mostram exatamente as mesmas formas abstratas - quadrados e retângulos dentro de quadrados e retângulos - que vinte anos depois serão o conteúdo exclusivo da pintura.Com uma ampla seleção de pinturas ao longo de sete salas - mais o octógono central, onde ficam as esculturas, técnica que Ianelli vem também utilizando nos últimos dez anos -, a retrospectiva da Pinacoteca é necessariamente concentrada. Talvez por isso mesmo cause tanto impacto, e evidencie com tamanha clareza o lirismo que o individualiza. Até por influência do concretismo, que tinha um projeto conceitual avesso a qualquer expressividade, antiemocional por excelência, costuma-se imaginar que esse tipo de pintura seja sempre fria e encucada, inepta para veicular ou suscitar prazeres além das discussões teóricas e exercícios mentais. Nada mais distante de Ianelli, que nunca procurou fazer nenhum discurso sobre arte nem nenhum discurso por meio dela. Surpreendente, quase paradoxalmente, a abstração e a geometria lhe servem para um projeto de sedução. Tornou-se quase pecado, hoje em dia, gostar de uma arte que se preocupe antes de tudo com a beleza, com a gratificação, com oferecer soluções e não apenas com "discutir" problemas. Compreende-se, em vista da coleção de dúvidas e misérias em que, desde o fim do milênio passado, o horizonte do homem se transformou. Mas é arbitrário e injusto (e sobretudo masoquista) querer excluir da arte mais contemporânea a função confortadora, até consoladora, que ela, historicamente, desempenhou na cultura ocidental.A cor constitui a principal arma de sedução de Ianelli. É verdade que em arte não existem instrumentos de medida, e que afirmações do tipo o maior isso ou o mais perfeito aquilo carecem de rigor. Ainda assim, ele se prova um colorista excepcional, justamente porque em sua obra a cor vem à tona por si e para si mesma, autônoma, sem estar a serviço de nem possuir os atavios da forma requintada. Tudo parece muito simples, cada vez mais simples, e é ao mesmo tempo cada vez mais profundo e elaborado. Nos últimos 15 anos, a forma se dissolve. Já nem há contornos, os quadrados e retângulos não mais se inscrevem uns nos outros, apenas subjazem à cor, que se espalha em transparências, gradações e áreas de densidades distintas. Em algumas fases, manchas e faixas flutuantes podem lembrar a pintura de Mark Rothko. Tudo tem a sobriedade mais perfeita, quase severa, mas mesmo dos quadros em tons escuros, até sombrios, se desprende uma espécie de incandescência luminosa.Falei de Mark Rothko? Sim, e muito de propósito. Mais de uma vez pude ouvir menções ao parentesco em tom pejorativo, como se isso transformasse o mestre brasileiro numa versão diluída do mestre russo-americano. Vai aí uma incorreção, que mistura certa ingenuidade com desconhecimento de causa.Primeiro, porque a originalidade à outrance, o querer fazer a revolução permanente na linguagem é um projeto oitocentista, do Romantismo, mas não é inerente a toda arte. Há nela outros requisitos não menos importantes; a perfeição de Mozart não é inferior à radicalidade de Beethoven. Segundo, porque no caso dos países econômica e culturalmente caudatários - e o Brasil é um deles -, as "matrizes" de linguagem foram, inevitavelmente, cunhadas no Primeiro Mundo, e exportadas a seguir. Tanto que certo Ianelli não se parece mais com Rothko do que Di Cavalcanti e Portinari com Picasso (dois Picassos diferentes), a Tarsila "pau-brasil" com Léger, o melhor Cícero Dias com Chagall, mesmo Goeldi e Segall com o expressionismo alemão; são injunções, não defeitos de caráter ou falta de talento. Terceiro, porque basta observar atentamente a evolução interna da pintura de Ianelli para perceber que ele não foi beber em Mark Rothko. Ambos chegaram a soluções da mesma natureza porque têm sensibilidades parecidas. São temperamentos líricos que seguram o próprio lirismo, amantes de uma ordem inabalavelmente apolínea. Beberam nas mesmas fontes. São irmãos, não descendentes um do outro.Classicismo - O termo apolíneo nos remete para o universo do classicismo - à luz do qual pode-se entender mais plenamente o conjunto da produção de Ianelli. É evidente que, por sua natureza, por sua linguagem e propósitos, sua pintura é filha do século 20, quando pela primeira vez as artes se libertaram explicitamente da representação visual do mundo exterior. Faz parte da contemporaneidade. Faz parte, também, claramente, daquela "geometria sensível" latino-americana que, no século 20, nos deu de Torres-Garcia a Volpi, tentando estabelecer um contraponto, buscando um equilíbrio diante de uma natureza e uma cultura com um alto grau de desordem: a entropia tropical. Contudo, num outro plano, não há dúvida de que Ianelli é um espírito clássico - na exata acepção em que essa palavra se opõe a romântico. De um lado, contenção, economia, impessoalidade e rigor; de outro, a expressividade, a efusão, a confidência, a arte como exorcismo.É verdade que não sabemos se, no mais fundo de sua noite, Ianelli enfrenta demônios, ansiedades e conflitos; é provável, pois eles costumam estar na raiz da criação. Mas se existem, não aparecem à tona. Tudo o que vemos, em sua atual exposição, é a manifestação serena de uma pintura que procura refletir o concerto, não o desconcerto do mundo. Nesse sentido, seu classicismo não é, evidentemente, um estilo. É uma visão do mundo, a mesma que aparece em diferentes momentos da trajetória do homem no planeta, tem seu primeiro apogeu na Grécia Antiga, e retorna no Renascimento e no Século das Luzes. Constitui o contrário da penumbra da Idade Média, do transcendentalismo vertical da arte gótica, e do dramatismo exacerbado e sanguinolento do barroco.Justamente no Século das Luzes (que, aliás, idealizava um pouco a Antiguidade), Winkelmann, um dos primeiros grandes helenistas alemães, resumiu os valores do classicismo grego com uma fórmula ilustre até hoje: "Nobre simplicidade e silenciosa grandeza." Serve perfeitamente para descrever a pintura de Ianelli. Outro helenista bem mais recente, o argentino Rodolfo Mondolfo, destila da fórmula de Winkelmann "a liberdade e a claridade do espírito; a harmônica unidade de conteúdo e forma, do elemento sensível com o intelectual, da natureza com o espírito; a plástica serenidade e o sentimento de medida e da proporção; a sã e pura objetividade". Também poderia ter sido escrito pensando no mestre brasileiro. Como todos os classicismos, sua pintura se mantém inabalável no meio dos maiores contratempos - inclusive, agora, o de sua doença. Talvez seja justamente esse seu grande diferencial com a de Rothko. Chega a ser, de fato, mais imperturbável. Mais apolínea.

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