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José Patrício/AE
José Patrício/AE

A nata do choro paulistano

Gênero ganha mapeamento da cena contemporânea com disco e shows

Lucas Nobile - O Estado de S.Paulo

24 de março de 2011 | 06h00

O despojamento e a informalidade sempre marcaram as rodas de choro desde seu surgimento, no Rio do século 19. Naquela época, músicos tocavam de ouvido, entrando na onda da liberdade dos improvisos. Hoje, o cenário mudou bastante. Mas mesmo que a maioria dos instrumentistas saiba ler partituras, o espírito de descontração cultivado desde o período dos conjuntos regionais não se perdeu. Por todo o País observa-se o fortalecimento do gênero, com diferentes sotaques musicais para cada região.

 

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som Ouça trecho de Do Coreto para Roberta

 

São Paulo nunca ficou atrás com a força da sua cena de choro, mas ninguém havia se interessado em documentá-la, até que os pesquisadores e percussionistas Roberta Valente e Yves Finzetto decidiram mapear o gênero na maior cidade do Brasil.

 

O resultado disso é o projeto idealizado pela dupla, Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo, que reúne temas de 16 compositores atuais de São Paulo em um disco, cujo repertório será apresentado hoje e amanhã, no Sesc Pompeia. Entre eles, nomes de peso como Laércio de Freitas, Nailor "Proveta" Azevedo, Alessandro Penezzi, Zé Barbeiro e Izaías Bueno de Almeida, o Izaías do Bandolim. Todos os autores participarão das apresentações - com exceção de Proveta, com um problema no braço -, acompanhando o competente sexteto Ó do Borogodó.

 

Lançando agora seu primeiro fruto, o Panorama terá desdobramentos ainda para o ano que vem, com a preparação de um segundo disco e um documentário. No dia 16 de abril, o grupo apresentará novamente os temas do Panorama, desta vez, na recém-inaugurada Casa do Núcleo, espaço concebido por Benjamin Taubkin. "Uma cidade que já teve no passado compositores como Garoto, Antonio Rago e tantos outros, e hoje tem um cenário tão forte precisava dessa documentação", diz Yves Finzetto.

 

A ideia surgiu em 2008 com Yves, que encontrou em Roberta a parceira para levá-lo adiante. Eles tiveram um árduo processo de pesquisa, facilitado, é verdade, pelo fato de serem do métier e tocarem há anos nas melhores rodas de choro de São Paulo. "Eu nem sonhava em tocar e já fazia panfletos para divulgar o trabalho de ídolos como Zé Barbeiro, João Macacão e Milton de Mori. A gente conhece muita gente, mas o projeto só foi viabilizado porque houve colaboração de muitas pessoas, como os compositores, o Beto Mendonça, diretor do estúdio onde o disco foi gravado, o Sérgio Fabres, artista que cedeu suas obras para o projeto gráfico, o Rogério Escobar, que assumiu a parte gráfica, e a Stela Handa, que tocou o projeto fotográfico", diz Roberta.

 

No disco, Roberta e Yves conseguiram reunir temas dos compositores atuais mais representativos do choro de São Paulo. Expressando com fidelidade a linguagem do gênero, a dupla teve méritos em compilar temas de autores e instrumentistas de diferentes escolas e gerações. A consequência desse balaio sadio é a diversidade e a criatividade das composições.

 

"Para retratar o choro de São Paulo, daria para fazer uma caixa de discos. O projeto é de muita responsabilidade pra gente, que optou por fazer um recorte. Escolhemos músicos jovens para tocar esse repertório, mas tem a linguagem tradicional de chorão, com base nos conjuntos regionais", explica Yves Finzetto, referindo-se aos comparsas do grupo Ó do Borogodó.

 

No palco, com a participação dos compositores, o sexteto ainda mostrará, além de obras compiladas pelo projeto, temas dos violonistas Zé Barbeiro (Não Me Siga Que Não Sou Novela), Alessandro Penezzi (Como Raul Gosta), Israel Bueno de Almeida (Choro Manco), Edson José Alves (Canção Inesperada), Luizinho 7 Cordas e Everson Pessoa (Curioso, em parceria com o cavaquinista Maurilio Oliveira, assim como Everson, também do Quinteto em Preto e Branco), Ruy Weber (Choro 88) e Edmilson Capelupi (Cuco), o acordeonista Toninho Ferragutti (Santa Gafieira), os cavaquinistas Milton de Mori (Saudades de Radamés) e Arnaldinho Silva (Tocando pra Mariza), o flautista João Poleto (Lá Pelas 9) e o saxofonista Thiago França (Irmãos de Briga).

 PANORAMA DO CHORO PAULISTANO CONTEMPORÂNEO - Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, telefone 3871-7700. Quinta, 24 e sexta-feira, 25, às 21 h. R$ 4 a R$ 16

 

** Análise: Henrique Cazes

A evolução que ainda preserva o tradicional

Os elementos que se misturaram para o surgimento da música popular urbana, ao longo do século 19, foram basicamente os mesmos, em diferentes lugares. Danças vindas da Europa, especialmente a polca e a habanera, o sotaque musical de cada colonizador e as influências rítmicas trazidas da África. Se compararmos o choro, a beguine da Martinica, o danzon de Santiago de Cuba e o ragtime norte- americano, veremos que tudo veio da polca, mas salta aos olhos o fato de o choro ter atingido um grau muito mais elevado de elaboração. E por que isso teria acontecido?

 

Primeiramente, devemos creditar nossos pioneiros, músicos como Joaquim Callado, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga, dentre outros, que exerceram forte liderança, cada qual em um front do choro, estabelecendo um alto padrão decomposição que dura até hoje. Não foi à toa que músicos como Carlos Gomes e Villa-Lobos viram em Anacleto e Nazareth a expressão de nossa identidade musical.

 

A geração de Pixinguinha, Candinho e Bonfiglio de Oliveira deu forma definida ao choro, fazendo com que esse termo significasse também um gênero musical. E o mais interessante é que, mesmo depois de um estilista genial como Pixinguinha, o choro não parou de experimentar. Radamés Gnattali e Garoto trouxeram informações do jazz e do clássico. Severino Araújo traduziu a big band enquanto K-Ximbinho e Paulo Moura aprofundaram o namoro entre choro e jazz. A musicalidade chorística espalhou-se, levada pelas ondas do rádio e por meio de grandes solistas, dos quais ainda temos Zé Menezes e Altamiro Carrilho.

 

Nos momentos mais difíceis, após a morte de lideranças como Jacob de Bandolim (1969) e Pixinguinha (1973), o choro encontrou meios de reagir, atraindo novas gerações. A minha, que entrou na roda em meados da década de 1970, investiu na codificação e na transmissão organizada do conhecimento relativo ao assunto e o choro foi a escola.

 

Enquanto mais e mais jovens começam a tocar choro pelo Brasil, já temos alguns exemplos de bons intérpretes estrangeiros, como o bandolinista japonês Oh Akioka e a clarinetista israelense Anat Cohen. Na primeira década do século 21, pudemos observar o brilho de uma nova geração, capitaneada por Hamilton de Holanda e Yamandu Costa, virtuoses que procuram equilibrar tradição e experimentação. Fazendo um balanço global e ouvindo o repertório de uma roda de choro de hoje em dia, chego a conclusão de que nos desenvolvemos em um modelo evolutivo acumulativo. Cada nova proposta que chega não descarta alguma prática do passado. Às vezes, a grande novidade que um solista lança na roda é o balanço de uma polca amolecida do século 19.

 

Esse rico universo, em que cabem tradicionalismo e experimentação, amadorismo e profissionalismo, competição e solidariedade, improvisação e rigor formal, pulsa ao compasso da paixão: um dialeto musical vivo.

 

HENRIQUE CAZES É CAVAQUINISTA, COMPOSITOR E AUTOR DE CHORO - DO QUINTAL AO MUNICIPAL

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