A narrativa radical de Nikolai Gogol

Coletânea de contos reúne obras-primas do escritor, cujos relatos singulares e cômicos se aproximam do absurdo

Aurora F. Bernardini, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

O Capote e Outras Histórias, de Nikolai Gógol, abre-se com nada menos do que as três obras-primas do Gógol contista, várias vezes aplaudidas nos palcos e no cinema: além de O Capote, o Diário de Um Louco e O Nariz, sendo o final do livro representado por duas histórias fantásticas inspiradas em coletâneas de lendas folclóricas ucranianas: Noite de Natal e Viy.

Quem não ouviu falar em Akáki Akákievitch, o infeliz funcionário público de nona classe, o amanuense de um departamento da Rússia czarista, a quem, após inúmeras aleivosias, acabam roubando o bem mais precioso de sua pobre existência? E quem não se comoveu com as páginas do diário do jovem a quem a paranoia leva ao desconcerto final: "Mãezinha, salva o teu pobre orfãozinho! Estreita em teus braços o teu pobre filhinho! O mundo não é para ele!(...) Sabiam que o bei argelino tem um galo bem debaixo do nariz?" E finalmente, quem não acompanhou o suspense do desfigurado major Kovaliov nas buscas pelo seu nariz? Não passariam, entretanto, de tramas singulares, não fosse pela genialidade do contista que soube entretecê-las com elementos do absurdo, ora cômicos, ora grotescos, ora patéticos, sempre satíricos e mordazes, bem reproduzidos pelo tradutor. Grandes autores e estudiosos do mundo inteiro se debruçaram sobre essas obras procurando analisar os diferentes segredos de sua fatura: o crítico russo Boris Eichenbaum, por exemplo, em Como Foi Feito O Capote de Gógol descobre o tom pessoal do Gógol-ator que escreveu o conto para ser lido em voz alta, onde o "gesto sonoro" é quem orquestra os vários momentos de "declamação patética" e de "imitação mímica" dos personagens, que são a "projeção imobilizada de uma atitude". O artista é o verdadeiro herói - diz ele - que os domina em toda sua alegria e gosto pelo jogo.

Já em O Nariz, no qual o absurdo inicial do súbito desaparecimento do órgão do olfato é mascarado por uma sintaxe lógica e rigorosa, é Kafka, entre outros, nos seus Sonhos, quem nos desvenda, numa segura pista onírica, o alívio de - ao despertar após uma mutilação - reencontrar a normalidade: "Sonhei com dentes sem parar: não com dentes alinhados na dentadura, mas formando uma massa, é isso, dentes como encaixados em brinquedos para criança montar(...)". "De manhã, ao entreabrir os olhos (...) achei que o encaixe definitivo e inalterável dos dentes tinha um significado indubitavelmente portador de sorte (...)".

No Brasil, é Ruy Coelho que em seu brilhante ensaio Ficção e Realidade nos mostra como em Diário de Um Louco essas duas entidades são indissolúveis, e como o discurso poético (é assim que ele chama o narrar de Gógol) é portador de uma atualidade radical em que "só quem ama tem ouvidos capazes de ouvir e de entender o bei de Argel".

AURORA F. BERNARDINI É PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA RUSSA

DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, TRADUTORA DE AUTORES COMO TSVETAN TODOROV E MARIANA TSVETAIEVA, AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O FUTURISMO ITALIANO (PERSPECTIVA) E HENRIQUE IV E PIRANDELLO (EDUSP)

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