A narrativa, em sons, de boas histórias

Kent Nagano faz com que obras de autores dialoguem em concertos com a Orquestra Sinfônica de Montreal

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2013 | 02h09

O maestro Kent Nagano, que anteontem regeu a Sinfônica de Montreal em concerto na Sala São Paulo, não precisava, como fez em entrevista ao Estado, desculpar-se pelo repertório previsível de sua passagem pela cidade. Se o primeiro concerto foi convencional, o segundo compensou graças a uma articulação inteligente. De Berlioz a Stravinski, passando por Rimski-Korsakov e Ravel, Nagano escancarou uma das rotas que teceram a música do século 20. Os quatro são eméritos contadores de histórias e escrevem maravilhosamente bem para orquestra.

A escolha das obras foi cirúrgica. A abertura O Corsário não abre nada, é peça isolada de Berlioz. Foi ele que apontou a saída para o impasse da forma sinfônica pós-Beethoven. O gênero saturou-se. Berlioz e Liszt o desestabilizaram com a música de programa, em que se incluem os poemas sinfônicos; e as músicas aplicadas, como as de balé, em que Stravinski é o exemplo mais notório.

O poema sinfônico significa a libertação da música sinfônica dos modelos formais rígidos da sinfonia e da retórica concertante. A ideia dita a forma, sempre nova. É esta utopia, segundo Michel Chion, que levará à obra-protótipo do período contemporâneo. Ou seja, o quase desaparecimento dos gêneros.

Por isso o concerto foi tão vibrante. Mais do que estórias como a do violinista cigano, do pássaro de fogo ou de Sheherazade, se narrava ali o nascimento da modernidade. Há ideia mais simples do que contar uma história? Há desafio maior do que contá-la sem palavras?

Incríveis, exatas, as madeiras de Montreal, nem tanto os metais, às vezes estridentes demais. O balanço entre os timbres ficou por conta do magnífico Nagano. Noite rara, na qual o poder de sedução de Berlioz, Ravel, Rimski e Stravinski encontrou mágicos contadores de histórias.

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