A narrativa, de tão fragmentada, avança aos trancos

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2012 | 03h07

JJJJ ÓTIMO

JJ REGULAR

Beto Brant era um cineasta narrativo no começo de sua carreira, e era melhor no tempo de Os Matadores, por exemplo. Mas ele foi se afastando daquela linha de cinema, para fazer sua imersão num projeto radicalmente autoral (como se cineastas que contam histórias tradicionais não o fossem). Eu Receberia, adaptado do original de Marçal Aquino que já inspirara O Amor Segundo B. Schianberg, é sua nova parceria com Renato Ciasca. Narrativa fragmentada, nas bordas da ficção e do documentário.

Basicamente, trata de um triângulo e as cenas de Camila Pitanga com Gustavo Machado são intensas - embora não tanto quanto as de Camila, como Dama da Noite, com Rafael Raposo, em Noel, Poeta da Vila, de Ricardo Van Steen. A própria Camila, em entrevista ao Estado, elogiou o método de Beto. Ocorre que o 'método', em geral, não interessa necessariamente ao espectador. Vittorio De Sica é acusado hoje de haver abusado de Enzo Staiola em Ladrões de Bicicletas, mas durante décadas o que os críticos analisavam era a cena, não a forma como aquele olhar foi arrancado do menino.

Como obra de 'bordas', Eu Receberia com frequência dá a impressão de transbordar. O triângulo é seu eixo principal, mas a ambientação no Pará traz todo um universo social - os problemas dos índios, dos madeireiros. Essa paisagem compõe um fundo poderoso para o triângulo do pastor, sua mulher e o fotógrafo. Só um fundo? A narrativa, de tão fragmentada, avança aos trancos, subordinada às necessidades estilísticas. O fade in e o fade out, artifícios em desuso, são usados para abrir e fechar as cenas, a 'posse' de Lavínia (Camila) vira metáfora da questão fundiária e o direito à propriedade na Amazônia.

Certos encaixes parecem sem sentido, Zecarlos Machado, bom ator, é engolido por Gero Camilo, o único cuja angústia parece 'real' e Viktor, o personagem que interpreta, tem a melhor frase: "Santa é a carne que peca". Camila é mitificada - o inverso do movimento de Van Steen na Dama da Noite. O terço final é caótico, a mulher e o filme se desarticulam. Mas, claro, é cinema de 'autor' e os críticos (!) estão amando.

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