A música na memória da italianidade

Em cada canto, o italiano e a música italiana se fizeram presentes de um modo peculiar. Nasci e cresci no subúrbio operário do ABC, onde, no século 19, o governo imperial estabelecera os primeiros núcleos coloniais paulistas, em antigas fazendas dos monges de São Bento, desapropriadas: São Caetano, São Bernardo e, também, em Ribeirão Pires, que não era fazenda beneditina. Ali foram assentadas muitas das primeiras famílias italianas imigradas, vindas sobretudo do Vêneto, já no processo de substituição do trabalho escravo.  Aprendi na escola o chamado português culto com sotaque italiano, o sotaque das ruas e da vizinhança. O diretor da escola paroquial, Verino Segundo Ferrari, neto de italianos, amigo de meu pai, falava com fortíssimo sotaque mantovano, da região de onde viera sua família, em 1878. Era assim no subúrbio e nos bairros operários de São Paulo: Mooca, Brás, Lapa, Barra Funda, Bom Retiro, Vila Prudente, Cambuci, Belenzinho.  Durante a Segunda Guerra Mundial, na ditadura de Vargas, os filhos e netos de italianos ouviam a música italiana às escondidas, proibido que estava falar-se em língua estrangeira. Solfejavam no fundo do quintal, na cozinha. Não foi raro casas invadidas para rebentar os discos-bolachões que guardavam a memória musical da terra dos antepassados. Brasileiro tinha que ser brasileiro na marra. Durante a ditadura militar recente, os livros de registros de desembarque de imigrantes, arquivados na Hospedaria dos Imigrantes, rol das centenas de milhares de trabalhadores trazidos da Itália, da Espanha, de Portugal, da Alemanha, da Suiça, do Japão, para trabalhar nos cafezais de São Paulo, não raro em condições servis, quase foram destruídos por ordem de um milico. Salvos pela providencial intervenção de um funcionário simples que escondeu os volumes. Tão forte são esses vínculos oníricos com a terra dos antepassados, especialmente entre italianos, que no bairro do Brás, no Largo da Concórdia, houve o Teatro Colombo, que conheci. Uma placa comemorativa dizia que ali o próprio Pietro Mascagni regera a sua "Cavalleria Rusticana". Amava-se em italiano. Meu amigo da adolescência José Romualdo dos Santos, baiano, trabalhador como eu, contou-me um dia, às gargalhadas, que passando à noite por um escuro beco do Brás, quando voltava do trabalho para casa, viu a silhueta de um casalzinho que namorava e sussurrava juras de amor e ouviu, com enorme espanto: "Tu mi ama, Nino?" "Puta que pariu, si ti amo Concetta!". Minha geração ouvia, todos os dias, no começo da noite, a Mensagem Musical da Itália, patrocinado pela fábrica de móveis de vime de Anselmo Cerello, na Rádio Gazeta, a emissora da poesia, da hora do livro (de Paulo Bonfim e de Fernando Soares) e da boa música, que tinha sua própria orquestra sinfônica, regida pelo maestro Armando Bellardi. Caruso, Lanza, Tito Schipa, Carlo Butti, sobretudo Benjamino Gigli, eram ouvidos sempre.  Mas, pequeno era o mundo: um belo dia, entre o fim dos anos quarenta e começo dos anos cinqüenta, o próprio Benjamino Gigli, o Pavarotti da época, foi a São Caetano almoçar com os padres estigmatinos da Paróquia da Sagrada Família, que eram italianos. Era amigo de infância do vigário.Viera fazer uma apresentação no Teatro Municipal de São Paulo e aproveitara para visitar o amigo no subúrbio operário. Cantou na missa matutina, abraçou adultos e crianças na escadaria da igreja, na Praça Cardeal Arcoverde, deixou-se fotografar com os moradores e foi almoçar com os padres uma boa pasta na casa da família de um morador ali perto, na rua Santo Antônio.  Não estranhei, portanto, quando, já adulto, fui estudar italiano na Casa di Dante, tendo como uma das professoras a Signora Anita Salmoni, que fora professora de Língua e Literatura Italiana na USP: aprendi rápida e facilmente a língua, que falo, leio e até escrevo, pois de certo modo já a conhecia. Em memória de Pavarotti, que faleceu na manhã de hoje, passo-lhes essas lembranças e repasso-lhes a bela "Nessun dorma", da ópera Turandot, de Giacomo Puccini, com Luciano Pavarotti e amigos  *José de Souza Martins é sociólogo, professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). De 1996 a 2007, tem sido membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário das Nações Unidas contra as Formas Contemporâneas de Escravidão.

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