José Patrício/ AE
José Patrício/ AE

A música da palavra

Alzira E. canta suas composições com letras do poeta arrudA, que lança livro

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2011 | 00h00

Música é poesia para a compositora e cantora Alzira E. A poesia é melódica e rítmica na escrita de arrudA. Parceiros desde o álbum anterior dela, Alzira E. (2007), são como linha e linho entrelaçados, se estimulam mutuamente em jorros criativos, como o que desaguou no ótimo CD Pedindo a Palavra. É o azeite mais refinado dessa parceria que Alzira e o trio formado por Du Moreira (baixo e teclados), Luiz Waack (guitarra) e Curumin (bateria) servem aos bons paladares hoje e amanhã no Sesc Pinheiros. Curumin também toca uma canção dele.

Paralelamente, arrudA trabalha com outro compositor, Peri Pane - no show de música, humor e poesia Canções Velhas para Embrulhar Peixes, que volta dia 8 de setembro no Auditório do Sesc Vila Mariana. Também editou o livro de poemas As Menores Distâncias Podem Levar Uma Vida (Edith, 60 págs., R$ 25), em que a questão do tempo (abordado na canção Beijos Longos) é predominante. Além de assinar as letras de Pedindo a Palavra, ele participou do CD de Alzira na fusão de uma composição dela (Caos), com um poema dele (À Parte), que recriam no palco.

Produzido pelo baixista Du Moreira, Pedindo a Palavra é o oitavo disco de Alzira. É talvez o que ela mais tenha chegado ao ponto essencial, em que a concisão da escrita de arrudA se alinha em melodias inesperadas e com instrumentação minimalista.

Ao mesmo tempo são canções pop que cativam à primeira audição - como Se Parece Com Você, Aprovei-te, Quasares, Olhos de Chico Buarque -, e que encontram paralelo no trabalho de compositoras-cantoras da nova geração, como Andreia Diaz (ex-Dias) e Anelis Assumpção, que Alzira reconhece como herdeiras musicais.

"Completamente desvinculada de qualquer padrão sonoro", como Thom Yorke, que ela admira, sempre há algo mais a ser descoberto, inexplicável, sem que uma sílaba sequer esteja fora do lugar. "Trabalho mais no que a música está pedindo, do que ela necessita para estar viva", diz Alzira.

A velha e inconclusiva discussão sobre o que é letra de música e o que é poema não cabe no caso de arrudA. "Não consigo ver diferença", diz ela, que é antiga parceira da também poeta Alice Ruiz e musicou Cora Coralina.

"Para mim a única diferença é se você é o poeta ou não. Minha poesia ter uma vocação musical é uma característica do meu barato, da minha linguagem", diz arrudA. "Acho que a música veio antes da poesia na história da linguagem, mas não penso em música quando estou escrevendo."

Filho da poeta Eunice Arruda, ele diz que apesar de viver rodeado de literatura desde a infância, a influência maior vem da canção, de gente como Caetano Veloso e Belchior. Como diz Celso de Alencar, uma das referências de arrudA, no prefácio do livro, a poesia é fruto da vivência. Para arrudA, "a matéria vem da experiência e da urgência, de uma angústia, mesmo que seja uma alegria."

Amarração. Caos/À Parte é um dos pontos altos de Pedindo a Palavra, remete às incríveis parcerias de Alzira com Itamar Assumpção (1949-2003), e revela um outro aspecto da união dela com arrudA. "Ficou uma música com um poema dentro, esse poema criou um outro ritmo, que não é o que usualmente faço."

Eles produzem muito, e para escolher dez canções chegam a fazer o triplo disso. "É o exercício de estar junto, pensando parecido, mesmo que não seja de propósito (que, aliás nunca é), que abre portas pra gente ficar mais lapidado", diz Alzira.

Como os poemas de arrudA são curtos, "existia muito esse negócio do silêncio". "É um som vazio, e foi aí que ele foi se amarrando", como sintetiza na letra da canção-título do CD: "Isso tudo que você me diz sem dizer nada/ É o ponto cego dessa cicatriz/ Costura frágil / Caminhada... / É o silêncio que dói na raiz/ É o silêncio pedindo a palavra."

Nesse contexto, Alzira vem desenvolvendo outra linguagem musical em função da sonoridade da palavra, a partir do estilo de letra/poema dele. "Quando componho com arrudA sinto como se tivesse atingido a síntese da minha melodia e da minha harmonia. Acho que a poesia dele tem um ritmo e uma música que combina muito com a minha."

Outra linha evolutiva de trabalho vem do fraseado do contrabaixo (a exemplo de Itamar), que ela foi buscar em Du Moreira. "Não sei o que veio primeiro. É como a história do ovo e da galinha. Quando fui procurar Itamar, eu já fazia minhas músicas e isso foi também um atrativo para a gente começar a parceria lá atrás", lembra a compositora. Se arrudA tem algo de Itamar, logo é o que Itamar tinha de Alzira.

ALZIRA E. E TRIO

Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, tel. 3095-9400.

Hoje e amanhã às 20h30. R$ 3 a R$ 12. Com Du Moreira (baixo e teclados), Luiz Waack (guitarra) e Curumin (bateria)

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