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Ignácio de Loyola Brandão
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A mulher que nunca beijou

"Como é beijar?”

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2015 | 02h00

“O que, tia?”

“Como é beijar?”

“Beijar é beijar, não sabe?”

“Não sei. O que você sente?”

Todas as mulheres da família, desde as mais velhas com 80 anos, as cheias de experiência com 70, às médias com 60, as maduras com 50, as amedrontadas com o porvir aos 40, as assustadas com os 30, as esfuziantes com 20, até as adolescentes com 14 se acostumaram ao longo dos anos, com a pergunta de tia Margô. “Como é beijar?” É bordão, refrão, interrogação constante, questão essencial para ela, assim como outros indagam se Deus existe, o que é a vida, o que vem depois da morte, há vida em outros planetas, quem inventou a esquina, o Lava Jato vai virar pizza, o Lulinha é dono da Friboi, botox e silicone devolvem a juventude, os 7 x 1 serão esquecidos? 

“Como é beijar?” A pergunta sem resposta foi a companhia constante na vida de tia Margô, hoje com 96 anos, ainda bela, pele fresca – todos perguntam o que ela faz para se conservar assim, ela sorri e diz: “Conto depois de me dizerem como é beijar”. A pergunta deixa todos perplexos. Beijar é experiência íntima, sensação pessoal, emoção diferente para cada um, nada varia infinitamente. É uma obsessão para tia Margô, mas nada que a deprima, sufoque, a deixe apática, desesperada, ansiosa, inquieta. Há um sorriso tranquilo, ela sabe que o beijo é coisa boa, viu dezenas de filmes, assiste a todas as novelas, sabe que crianças beijam de um jeito, jovens, adultos, idosos, de outro. Sabe o que é um beijo erótico, o beijo paternal, o fraternal, o malicioso. Ela pediu a Cássio, o cinéfilo da família, que conseguisse para ela aquele rolo com todos os beijos que o padre mandou cortar no filme Cinema Paradiso. “Talvez ali eu aprenda como é beijar.” Ficou desapontada quando soube que o rolo não existe, é ficção. Inteligente, ela comentou: “Assim como o beijo para mim é ficção?”.

Leu todos os poetas, ouviu todas a canções que falam de beijos. “Lábios que beijei, mãos que afaguei”, murmura tia Margô, na janela de sua casa, numa rua pacata desta pequena cidade. Esconde-se atrás da cortina e observa casais de namorados que, encostados nas árvores, se beijam e se agarram. O mundo mudou, mas ainda há jovens que se beijam debaixo de árvores ou encostados em muros. Dia desses, chamou a sobrinha Lídia: “Me explique o que quer dizer mostro a boca marcada ainda molhada pelo beijo seu. A boca molha, se enche de água com o beijo?”. Outra vez quis saber do irmão: “Beijo é doce? Porque aquela música diz: que beijinho doce foi ele quem trouxe de longe pra mim. De onde vem o beijo?”.

Talvez ninguém saiba mais sobre a teoria dos beijos que tia Margô. Porque ela nunca beijou. Jamais. Nem um selinho. Atravessou a vida sem saber o que é encostar seus lábios em outros lábios, abrir a boca, buscar a língua do companheiro, amor, namorado, noivo, marido, o que for. Um irmão, cínico e com uma ponta de maldade definiu: Margô, a dos lábios virginais. Anos e anos se passaram e Margô tem vivido encerrada em um mundo particular que envolve o mistério: como é beijar? Há grandes problemas do mundo, sei, penso neles, porém me entristeço ao pensar que tia Margô jamais desvendará uma das mais simples questões deste universo que tem bilhões de anos: como é beijar?

Conheço a história dela. Jovem, apanhou tuberculose. Assim se dizia: apanhou. Sabe-se lá como foi contagiada. Tinha 15 ou 16 anos, mais ou menos. Era comum. Doença romântica para quem não tinha. A doença da Dama das Camélias e de Chopin. Tia Margô gostava de um rapaz. Namorava, mas ainda na fase de olhares furtivos, primeiros encontros na sala, vigiada. Um dia, Margô quase beijou, foi interrompida pela avó, que não confiava em ninguém. Diagnosticada a doença, Margô foi enviada para o sanatório em São José dos Campos, ficou um tempo, voltou para casa. Curada, afirmaram. Todos na pequena cidade souberam, se condoeram, como se dizia, mas se afastaram. Ninguém chegava perto dela. Havia pânico. Desviavam na rua. Um estigma como a hanseníase ou a aids, hoje. O namorado casou-se com outra. Amigos não se aproximavam, foi difícil conseguir trabalho. Quase um ano depois (culpa de quem? Como saber?), chegou uma carta do sanatório, declarando que Margô não tinha tido tuberculose, apenas água no pulmão. Ela exibiu a carta a todos. Foi um a um, mostrou. Tarde demais, a dúvida estava instalada. Condenada à solidão, a vida nunca mais foi a mesma. Mas por sentir-se viva e sem a “doença” como se dizia, era alegre, lia livros e revistas, ouvia rádio, depois viu televisão, foi ao cinema, encheu a vida como foi possível. Viveu quase normal. Da janela, amou muitos, sonhou com os beijos. Hoje, ela ainda tem medo de morrer com esse vazio dentro. Como é beijar?

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