A mulher que fazia Saramago trabalhar...

Foram quatro anos de trabalho intenso. Miguel Gonçalves Mendes só pensa em férias. O diretor do documentário José e Pilar, que estreia hoje, conversa com o repórter do Estado pelo telefone. Está no Rio, na verdade, está no Brasil desde setembro, para o Festival do Rio. Emendou com a Mostra de São Paulo. Regressa amanhã para Portugal, mas já sabe que as férias terão de esperar mais um pouco. Dia 16, José e Pilar estreia nos cinemas portugueses. Será um lançamento grande, para um documentário - 20 cópias. A data havia sido acordada com o próprio escritor José Saramago. Seria o dia de seu aniversário.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2010 | 00h00

José e Pilar oferece um retrato intimista da relação entre o autor português, vencedor do Nobel , e a jornalista espanhola Pilar Del Rio. Diretor de ficções e documentários, Mendes quis fazer este filme pela própria natureza dos retratados. Não foi uma obra de encomenda - ele correu atrás do dinheiro e confessa que os percalços foram tantos que é um pouco por isso que só pensa em férias, mas isso será somente lá por janeiro. Depois do lançamento em Portugal, haverá o espanhol. E por que Mendes queria tanto contar essa história?

"Pilar fez um trabalho de suma importância para divulgar e internacionalizar a obra de Saramago. Sem ela, ele talvez não ganhasse a dimensão que obteve. Os dois tinham muitas diferenças, mas se completavam. E eu tenho a impressão de que, nesse mundo criminoso que forjamos, eram amantes na luta. Denunciavam a injustiça, o abuso. Isso faz deles, não apenas da escrita de Saramago, do seu Nobel, uma coisa extraordinária."

O filme acompanha o dia a dia da dupla na casa em Lanzarote e também o processo de criação, execução e promoção do romance A Viagem do Elefante, desde que Samarago vislumbrou a história, em 2006 até o lançamento do livro no Brasil, em 2008. O total do material recolhido bateu nas 240 horas. Delas, Mendes tirou uma primeira montagem de 6 horas, que Fernando Meirelles viu. A O2, do diretor brasileiro, associou-se ao projeto, com a El Deseo, de Pedro Almodóvar. Sem esses aportes, Mendes acredita que não teria conseguido finalizar o filme.

As 6 horas já haviam sido reduzidas à metade - 3 - quando Mendes mostrou o filme para o próprio Saramago. A versão que chega aos cinemas tem 125 minutos. Mendes não gostaria de transformar as 6 horas numa série de TV? "Adoraria, mas você tem o dinheiro para que faça isso?", ele dispara. Editar tanto material é sempre difícil, mas ele admite que, às vezes, a concisão termina por ajudar. "Teve coisas que cortei com dor na alma e depois vi que ficaram melhores." Mesmo assim, admite que sofreu particularmente ao mostrar cenas muito íntimas - a da reforma na casa, o carinho de Pilar arrumando as coisas.

Uma crítica que muita gente faz, não ao filme, mas à personagem, refere-se à dureza de Pilar no trato com o marido José. Tanto no Rio, onde a ovação foi extraordinária, quanto em São Paulo, na Mostra, ouviram-se comentários do tipo - "Mas ela matou o pobre Saramago de tanto trabalhar!" Mendes considera isso um absurdo, além de moralista. Para ele, e é a sensação que o filme passa, ambos tinham um relacionamento muito especial. Pilar era forte. Supria carências do marido diante dos aspectos mais práticos da vida. O filme é intimista sem ser invasivo. Só isso já o transforma numa obra de exceção.

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