A mulher dos anos 70

A morena Jeanne Moreau ofuscou todas as ninfas loiras do cinema, de Martine Carol a BB

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2017 | 02h00

Ela primeiro disse não. Dera uma coletiva ao desembarcar na cidade - “Ça suffit” - e só graças ao empenho pessoal de quem a trouxe ao Brasil, o cineasta Cacá Diegues, para filmar Joana, a Francesa, Jeanne Moreau afinal aceitou conceder uma entrevista exclusiva às páginas amarelas de Veja. Escalado para a missão, caprichei no bê-á-bá da sedução. 

Contei-lhe que, na adolescência, falsificara a idade na carteira escolar para poder ver alguns dos filmes mais “risqués” do início de sua carreira, como Segredos de Alcova, proibidos para menores, omitindo-lhe o alvo prioritário de meu púbere voyeurismo, os seios de Martine Carol. Naquela época, só as atrizes europeias se despiam na tela. Com a Nouvelle Vague, todas as predominantes ninfas loiras do cinema francês, de Martine Carol a Brigitte Bardot, acabaram ofuscadas pela morena Moreau. 

Beldade nada convencional, com seus senões - “Tenho o rosto marcado, olheiras, olhar trágico e violento” - transformou-se na mais refinada (e cerebral) femme fatale do cinema, a pin-up dos intelectuais, alguém disse e ela não gostou. Para François Truffaut, um de seus pigmaliões, Moreau tinha todas as qualidades que a gente espera de uma mulher e todas as virtudes que esperamos de um homem, sem nenhuma das inconveniências dos dois. 

Por isso, o próprio Truffaut não lhe resistiu aos encantos; foi um de seus incontáveis namorados. Ela, que também conquistou, entre outros felizardos, Louis Malle, seu primeiro pigmalião, Miles Davis, Pierre Cardin (co-produtor e figurinista de Joana, a Francesa) e Lee Marvin, casou-se apenas duas vezes: com o ator e roteirista Jean-Louis Richard (pai de seu único filho, Jêrome, hoje um senhor de 68 anos) e o cineasta William Friedkin, ao lado de quem só aguentou também dois anos. 

Era uma adorável e charmosa dama prestes a completar 44 anos quando trocamos os protocolares “enchantés”, em seu apartamento do Hotel Nacional, em São Conrado, na primeira semana de novembro de 1972, onde conversamos por mais de uma hora. De túnica indiana branca, passara a manhã ouvindo e decorando num gravador a valsa que Chico Buarque compôs para Joana, a Francesa.

 

Com o pudor cabível, abordamos sua mais polêmica performance: a Jeanne Tournier de Os Amantes, agraciada com a primeira cunilíngua implícita da história do cinema - ou, pelo menos, a primeira cena de sexo oral embalada por um andante moderato de Brahms, um escândalo mundial. No embalo, falamos de Louis Malle, diretor de Os Amantes. “Ele é um homem que tem medo de suas emoções”, confidenciou, sem entrar em detalhes. Como já fizera quatro filmes com ele, deduzi que hipocondríacos emocionais pouco ou nada a incomodavam. 

Truffaut? “Um espelho de suas faces, romântico e cartesiano, frágil e forte, o amigo mais constante e fiel que já tive.”

Joseph Losey? “Autodestrutivo e cheio de sentimentos contraditórios.”

Luis Buñuel? “Paixão à primeira vista. Meu pai espanhol.”

Orson Welles? “Um rei no exílio, com toda a beleza do mundo.”

Estávamos em 1972, ela ainda não atuara sob a direção de Kazan, Fassbinder e Wenders. Detestara a frieza de Antonioni (“para ele, o ator é um objeto”), razão pela qual levou dez anos tomando coragem para ver A Noite. “Vi na televisão, ano passado, e achei magnífico.” Admirava, mas não se sentia atraída por Godard: “Maltrata muito seus atores e eu não tenho tempo nem vontade de ser infeliz durante dois meses”.

Mas os compreendia. “Todo cineasta é desumano em seu trabalho; só pensa em seu filme. Welles se interessa bastante pelos atores, conversa, sempre em benefício de seu próprio filme. Mas é do tipo explosivo. Os gênios, em geral, são explosivos. A boa relação entre atores e diretores não exclui a violência nem o insulto.” Só Truffaut é perfeito, acrescentou.

 

Todos os verbos ainda se conjugavam no presente. Não sobreviveu ninguém. Que tristeza.

Sua maior frustração: jamais ter filmado com Jean Renoir. “Lutei dois anos para conseguir dinheiro para produzir-lhe um filme. Ele escreveu dois roteiros para mim. Um deles, Juliane et Son Amour, filme de época, custaria uma pequena fortuna e foi logo abandonado. O outro, La Clocharde, a história de uma mulher que abandona tudo e parte para a Califórnia, ninguém quis financiar. Receavam que Renoir, muito velho, pudesse morrer no meio da filmagem. Truffaut ofereceu-se como avalista, mas nem assim o projeto foi adiante.”

Venerava Welles e todos os seus filmes, sobretudo Cidadão Kane e Soberba, “absolutamente geniais”. Em seu altar também figuravam Stroheim (Ouro e Maldição, Marcha Nupcial e o inacabado Queen Kelly), Lubitsch (A Loja da Esquina e Ser ou Não Ser) e Josef von Sternberg. A seu fascínio pelo barroco atribuía a paixão que lhe despertavam filmes “exagerados, delirantes e passionais”. Por ter apreciado Os Herdeiros, de Diegues, como “um afresco barroco dos trópicos”, que aceitou ler o roteiro de Joana, a Francesa. Gostou, veio e enfurnou-se em União dos Palmares, nas terras dos Collor de Mello, em Alagoas. 

Até então conhecia o cinema brasileiro superficialmente. Assistira aos principais filmes de Glauber Rocha, mas me pareceu mais entusiasmada pelo Ruy Guerra de Ternos Caçadores, rodado dois anos antes na França. Dirigir já fazia parte de seus planos, promessa cumprida três vezes.

Independente e audaciosa, desejável e mitológica, não seria ela a mais bem acabada encarnação da mulher dos anos 60?, perguntei-lhe logo no início de nosso tête-à-tête. Sua correção daria o título à entrevista: “Sou a mulher dos anos 70”. 

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