'A mulher da Playboy é perfeita, não tem celulite'

Diretor da ‘Playboy’, Edson Aran diz ‘vender sonhos’ a um leitor que quer ser James Bond

Bruna Fioreti, Jornal da Tarde

11 de maio de 2009 | 10h49

A mulher da Playboy é perfeita. Fazer o leitor acreditar nesse mito é a missão que Edson Aran, 46 anos, enfrenta como diretor de redação da principal revista masculina do País. Se para transformar mulheres em musas for preciso maquiagem, enquadramento perfeito e boas doses de manipulação de imagem, qual o problema? Humorista, cartunista e jornalista, Aran faz perguntas como esta em um jogo de esconde-esconde para falar do polêmico Photoshop, o programa de computador que ‘some’ com as imperfeições físicas. “É lenda urbana”, diz ele. Mas admite: “Celulite não sai na Playboy”. Nesta entrevista, concedida na redação da revista na quinta-feira, ele fala das capas e mostra porque vende “um pouco de sonho”.

Você tem o emprego que muito homem pediu a Deus.

É, não existe revista mais divertida de se fazer. É um lugar cobiçado, mas também é uma revista como qualquer outra. Não tem um monte de mulher nua correndo aqui, uma hidromassagem no meio da redação... (risos) Só tem um cara na Playboy que tem vida de playboy, o Hugh Hefner (fundador da revista, dos EUA). As outras pessoas só trabalham aqui. A gente brinca que é porteiro de boate, só vê as mulheres passarem. Não sou playboy, estou na Playboy.

Mas você frequenta os ensaios?

Sim, mas interfiro pouco. Vou pegar o clima. Não discuto luz ou enquadramento, mas falo: “Esse ensaio está frio, pode render mais”. Um ensaio dura três, quatro dias. Dificilmente rende tudo logo no primeiro dia. Tirar a roupa na frente de uma câmera não é fácil. Se a modelo não for experiente, tem de ter um clima de sedução entre ela e o fotógrafo. E lembre-se que é ele, ela e mais dez pessoas ali. Tem de abstrair e entrar no jogo.

A ‘Playboy’ brasileira é a única que investe em capas com mulheres famosas. Por quê?

Foi uma decisão editorial nos anos 80, quando a Playboy começou, e não era líder. Não discuto se é celebridade, celebridade instantânea ou semi-celebridade.O fato é: a gente precisa de uma capa que seja reconhecida. Ao contrário da revista americana, que quer desnudar a ‘girl next door’, a menina comum. Um projeto do Hefner.

O brasileiro quer ver a famosa?

Quer celebridade, sem dúvida.

E se colocar uma anônima?

Vende menos. Quanto mais famosa, mais vende. Sempre foi a orientação. E hoje a gente vive um culto exacerbado às celebridades. A gente procura a mulher que está ‘acontecendo’. Mas nem sempre a escolha da capa é jornalística.

Mas o que seria escolha jornalística quando se fala em ensaio nu?

Por exemplo, a Mulher Melancia é uma escolha jornalística. Quando tem um estádio inteiro cantando ‘créu’, isso virou fenômeno pop. Quando se tem uma Mônica Veloso e se deixa passar uma mulher que derrubou um presidente do Senado (Renan Calheiros, em 2007), você não está fazendo jornalismo. Chamamos a mulher em exposição. É a mais pedida, os amigos falam, os e-mails chegam.

E quando o povo quer, mas você não consegue trazer?

O leitor fiel quer uma atriz global todo mês. Não vai ter. Até porque as coisas mudaram. Um reality show hoje é líder de audiência. Vai ignorar que um reality hoje molda mais que a novela? Não é só Big Brother. Tudo é reality hoje. Mudou o comportamento e a gente procura a capa onde ela está.

Os realities criaram um padrão? Sim, assim como antigamente tinha Feiticeira e Tiazinha, que surgiram num programa vespertino do Luciano Huck, na Band, e viraram fenômeno. As Sheilas (Carvalho e Mello) foram outro fenômeno. Ia ignorar a axé music? A (garota) Melancia? Não. É jornalismo.

Mas o interesse por uma BBB diminui rapidamente, não é?

Sim, o mundo está mais acelerado. Não sei se não era meio assim na época da Tiazinha e da Feiticeira, porque elas desapareceram... Mas hoje é bem mais rápido.

Tiazinha ainda seria capa hoje?

Se a Tiazinha quisesse, eu a colocaria na capa hoje, com certeza. Mas fizemos uma sondagem e, infelizmente, ela não tem interesse.

Mas isso não vai contra a ideia de colocar fato jornalístico na capa?

Aí é outra coisa. Ela entrou na categoria de pin-up. Viviane Araújo, Nana Golveia são pin-ups. Tem mulheres que viram ícones sexuais. Sempre geram interesse.

O que faz uma mulher virar ícone sexual?

Tem de ser sedutora. Tem mulheres bonitas que não têm apelo. As que viraram ícones têm uma certa ingenuidade e são gostosas. Suzana Alves, Sheila Carvalho, Joana Prado e até a Melancia... Ela tem cara de menina, quer ver? (pega a capa da revista). Olha esse rosto...

Será que o leitor olha o rosto?

Olha, a capa da Melancia é parecida com a da Tiazinha, segunda mais vendida da história da Playboy. Corpo lindo e rosto de menina. Ingenuidade e safadeza.

Quem bateria esse recorde?

Ninguém, os patamares de venda mudaram. A gente fez um estudo e viu que as revistas que foram recorde de vendagem nos últimos anos venderam cinco vezes mais que a média. É o que a Feiticeira vendeu naquele período. Quer dizer que Melancia venderia como a Feiticeira na época, e vice-versa.

Antigamente não era assim, mas hoje até o leitor comum diz que a mulher perfeita da revista tem Photoshop. Isso não é ruim?

Sim, virou lenda urbana. A gente costuma dizer que não usa Photoshop na Playboy. Não usa no sentido de que Photoshop não reconstrói mulher feia. Se ela é feia, nada vai salvar. O programa é para corrigir pequenas imperfeições. A espinha que apareceu na bunda da menina no dia do ensaio. Muita coisa resolve com maquiagem, bons fotógrafos. Mas virou lenda urbana, o que fazer? Aquela galeria que está ali (mostra uma foto da atriz Flavia Alessandra em um ensaio) é um papel fotográfico ampliado, não tem Photoshop. A Flavia Alessandra é isso.

Ela é isso, outras talvez não...

A maioria das mulheres quando chegam na Playboy são isso. Se for feia não há salvação. Photoshop não é tão usado como dizem.

Mas nunca vi celulite na revista.

Não, celulite não vai sair. Nossa mulher não tem celulite.

Por quê?

Porque não tem, nossas mulheres são perfeitas. O homem não vai comprar Playboy para ver celulite. Até concordo com o Xico Sá, macho que é macho não sabe a diferença entre estria e celulite...

Você deve saber a diferença...

Entre estria e celulite? Não sei (risos). Mas o que é o tratamento Playboy? Ela já é um ícone, só que produzida, maquiada e fotografada com o requinte da revista. Isso implica que a estria vai ser maquiada sim, a celulite vai ser maquiada sim, faz parte da brincadeira.

Mas alguns homens podem querer mulheres de verdade.

Quando você lê uma revista, está comprando um pouco de sonho também. A gente vende a ideia do playboy. O leitor da Playboy quer ser o James Bond, entende tudo de drink, é sedutor, as mulheres querem ficar com ele, anda de carrão, entende de jazz, literatura...

Poucos leitores devem ser assim.

Não sei se é tão irreal, o que é a vida, afinal? Não é correr atrás dos seus sonhos? Se encara a vida pelo que realmente é, você para e fala: “Vou plantar alface”. Qual o problema de vender sonhos?

Como saber que sonho o leitor quer comprar?

É sempre uma aposta. Antes da venda não tem como saber. Estamos sempre jogando poker, até porque envolve cachê. Melancia foi uma surpresa positiva. É parte do jogo. Gisele Bündchen, por exemplo. Adoraria colocá-la na capa, mas não sei se seria uma grande venda. Ela fala com público sofisticado, mas não com o popular.

Quando imagina que uma capa venderia, começa a negociar. Como convencer a futura capa?

A pessoa tem de pensar no que significa. Se a gente propõe e ela sorri, aí a gente conversa. Cachê não é o mais importante. A mulher tem de estar feliz com ela mesma, se sentindo sexy e achando muito legal estar na capa da Playboy. Porque é mesmo para poucas.

Realmente acredita que posar nua é tão legal assim?

Claro, é tão legal assim. A Playboy pode alavancar uma carreira. E claro que rola jogo duro antes de assinar. Mas mulher é assim, diz não quando quer dizer sim, não é?

Meio machista dizer isso...

Não, imagina.

No seu cargo é bom ser um pouco machista?

Não, a Playboy não é uma revista machista.

Mas feministas podem achar...

Existe feminista ainda? Achei que a Playboy tinha acabado com isso (risos). A Playboy não apenas retrata a revolução sexual como faz parte dela. Se volta na história, ela permitiu que uma garota travada, conservadora, tirasse a roupa. Isso não é machista, é profundamente feminista. A história da revista está alinhada politicamente à esquerda da história. Tranquilo.

Posar nua então é libertação?

Naquela época era.

E hoje?

De certa forma sim. Não tem o mesmo caráter transgressor de antes, mas é preciso coragem. Porque ela vai ser julgada. A pessoa vai falar: ‘Puxa vida, isso aqui tá cheio de Photoshop’.

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