A mulher como depositária da consciência

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2012 | 03h12

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

Nicole Kidman já havia sido uma impressionante Virginia Woolf em As Horas e até ganhou o Oscar de melhor atriz por seu papel no filme de Stephen Daldry. Pois ela consegue ser melhor ainda em Hemingway & Gellhorn. Como Martha Gellhorn, a lendária correspondente de guerra, ela divide a cena com Clive Owen, que faz Hemingway. Amam-se loucamente, mas são duas personalidades fortes. A ligação degenera, ele a agride fisicamente.

É no mínimo curioso que, num par de anos, o espectador tenha podido ver duas abordagens de figuras exponenciais das letras norte-americanas no século 20. Em Meia-Noite em Paris, Woody Allen contou a história de um escritor dos EUA na capital francesa, na atualidade. À meia-noite, produz-se o encanto e ele recua no tempo até os anos 1920, quando Paris era uma festa. Encontra Ernest Hemingway e John Dos Passos.

Hemingway e Dos Passos dão muito importantes na primeira parte do filme de Philip Kaufman, que trata da Guerra Civil espanhola. Hemingway, com sua aura de macho, chega a sugerir que existe alguma outra coisa na atração de Dos Passos pelo líder republicano Paco Zarra (o personagem de Rodrigo Santoro). O astro brasileiro tem uma entrada triunfal em Hemingway & Gelhorn, cavalgando um garboso ginete. Rodrigo conta que Kaufman queria uma cena romântica, em que ele fosse a encarnação do herói. Perguntou-lhe se sabia cavalgar. Quando Rodrigo disse que sim, a cena foi mudada no ato, em plena filmagem.

Como quase toda obra de Philip Kaufman, Hemingway & Gellhorn trata de temas como consciência e engajamento (ou responsabilidade, ou militância). Hemingway não tem muita consistência ideológica. Aceita o que ocorre com Paco Zarra como inevitável na dinâmica dos apoios de uma guerra. Martha Gellhorn tem mais acuidade para perceber o que a derrota da Guerra Civil da Espanha representa. Ela foi o balão de ensaio da 2.ª Guerra. A derrota dos republicanos foi um golpe nos seus ideais. A descoberta dos campos de concentração dos nazistas foi outro passo na escalada do horror.

Kaufman confronta seus personagens com o amor, o ideal, a traição, a guerra. Nós que amávamos tanto a República. Com pouco dinheiro e muita invenção, Kaufman recria décadas decisivas da história do século passado. Dá a volta ao mundo sem sair de São Francisco, onde o filme foi feito. Mistura cinejornais e cenas reconstituídas. Trata essas últimas com tanta acuidade que você as toma, muitas vezes, como documentários. Kaufman é fascinado por Hemingway (Clive Owen), mas a consciência é a de Martha Gellhorn (Nicole). Talvez ele estivesse assim sublimando a dor da perda de sua mulher. Depois de Mildred Pierce, de Todd Haynes, a HBO continua produzindo, na TV, o melhor cinema norte-americano.

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