"A Mulher Caixa" bate perna pelo mundo

Um roteiro de apresentações que inclui, até agora, quatro dos cinco continentes existentes no mundo. Quatro anos de apresentações, um público que já ultrapassa os dez mil. Todas essas marcas foram alcançadas por um grupo praticamente desconhecido do grande público, o Pinus Ploft, do diretor, ator e dramaturgo Darci Figueiredo, com a peça A Mulher Caixa, baseada em mitos amazônicos. E a campanhia já tem a próxima viagem agendada para este mês: o destino será a Suécia, onde vão se apresentar em um evento dedicado à Amazônia e organizado pelo artista plástico argentino Hugo Catolino Também estão em negociação com o Vietnã e Emirados Árabes. Uma das características mais peculiares da peça é o fato de os atores falarem a língua do país onde se apresentam. Por conta disso, o elenco já estuda sueco, vietnamita e começará a estudar árabe brevemente. Estudam também o tupi e o guarani, pois, no fim do ano passado, combinaram uma série de apresentações em 15 aldeias na região de Carapicuíba e pretendem ainda ir para a Amazônia. "Esse será o último passo, só depois de achar cada pedacinho da nossa cultura pelo mundo afora é que estaremos prontos para encontrar, de fato, a nós mesmos", garante o diretor. Mistério - O espetáculo conta com três atores: Joana Curvo, Sonia Ribeiro e Paulo Araújo e é realizado nas ruas. A história contada é envolta em mistério. Uma mulher, com a cabeça coberta por uma caixa, foi descoberta nas margens do Rio Negro, no Amazonas. Ela anda pelo mundo há mil anos e possui grande sabedoria. Para descobrir o que a mulher caixa tem para revelar é necessário colocar a cabeça dentro da caixa que ela carrega e durante um minuto ouvir o que ela tem a dizer. Depois disso, o segredo revelado não pode ser contado durante três dias. Ela é acompanhada por um arauto e um condutor que por meio da música explicam a história. A encenação é acompanhada de um apurado trabalho plástico presente no figurino e nos adereços que são desenvolvidos por Figueiredo, pelo artista plástico Osmar Benesson e também por J.C. Serroni. "Depois de cada viagem, mudamos o figurino, incorporando elementos visuais que apreendemos nos diferentes países", conta Figueiredo. A história internacional da A Mulher Caixa começou por causa de uma curiosidade do diretor. Depois de encenar a peça mais de 40 vezes na capital, interior e periferia de São Paulo, o dramaturgo estava intrigado com a reação do público da periferia e de locais de grande concentração popular, como Vale do Anhangabaú e Praça da Sé. "Eles acreditavam que a Mulher Caixa era de verdade", espanta-se Figueiredo. Por isso, começaram a ocorrer conflitos com pastores evangélicos e ciganas. "Achavam que a A Mulher Caixa concorria com eles, porque as pessoas vinham pedir, para a personagem, empregos e cura de doenças", conta. Em Santo Amaro, a companhia teve de ser escoltada por policiais, pois as ciganas e os pastores uniram-se para bater nos atores. "Por isso, quis ver como o público norte-americano se comportaria", conta Figueiredo. Lá a reação foi diferente, mas o sucesso começava. O prefeito de São Francisco, Willie Brown, gostou tanto do espetáculo que cedeu um bonde para os atores circularem. Além disso foram convidados para encenarem no Japão. A próxima parada foi, então, o continente asiático, onde apresentaram-se em Tóquio, na província de Shizuoka e em Fuji. Para a viagem os atores ficaram meses aprendendo o japonês. "Nunca havia planejado uma turnê mundial. Queria realizar uma troca entre culturas, para isso era essencial falarmos a língua local", observa Figueiredo. O inusitado do fato de atores brasileiros irem para o Japão contar um mito indígena em japonês gerou um especial de 15 minutos sobre a peça na televisão japonesa. "Lá são muito fortes os eventos religiosos comemorados na rua, mas o teatro de rua não é tão conhecido, principalmente no interior." Apesar das disparidades de cultura, o diretor percebe uma aproximação entre japoneses e brasileiros. "As danças primitivas japonesas, como o kabuki e o butô, por mais estranhas que pareçam, assemelham-se muito à cultura indígena da Amazônia" , constata o diretor, que morou por dez anos na região amazônica. Após essa experiência, o diretor - que foi ator da Companhia de Antunes Filho, com quem viajou por muitos países com as peças Romeu e Julieta e Macunaíma - quis levar a peça para um lugar gelado, para novamente buscar o ponto de contato entre culturas díspares. Sem qualquer patrocínio, ele olha o globo e decide os rumos que sua peça deve tomar. "Não há o que fazer a não ser ir atrás do que se quer sozinho num País sem política cultural." O diretor embarcou como único representante brasileiro no evento People and Development, uma iniciativa do governo finlandês que reuniu atrações culturais de todos os países da América do Sul e Central e que teve o maior número de representantes vindos da Nicarágua. "Foi um grande encontro dos povos latinos, em um país distante e gelado, o contraste era muito forte", conta. Os atores ficaram mais de seis meses aprendendo o finlandês para apresentar a peça. "Há dois momentos do meu trabalho nessa peça. Antes é o aprofundamento na mitologia indígena e depois o aprendizado da língua do país", explica Joana Curvo, a mulher caixa da atual temporada. "O mais importante foi o intercâmbio real, pois quando pesquisamos a cultura de um povo acabamos encontrando também a nossa", completa. Culturas - Na Finlândia, a presidenta Taja Halonen viu a apresentação, o que causou apreensão em sua equipe de segurança. "Eles não viram antes, então na hora em que ela colocou a cabeça na caixa, houve um desespero por parte dos seguranças", diverte-se Figueiredo. Essa foi a primeira viagem em que o figurino foi feito por Serroni, que continuou desenvolvendo as roupas na próxima parada da companhia, a África do Sul. "Planejei a África desde o início, por causa das nossas origens. Sem passar pela África faltava o coração da peça", conta o diretor. Foram então para o Standard Bank National Arts Festival, que ocorre há 25 anos na cidade de Grahamstown, na África do Sul. Denise Stoklos foi a única brasileira a participar desse festival há três anos. Nessa edição, havia três filmes do diretor Nelson Pereira dos Santos em exibição. Assim como na Finlândia foram com tudo pago pelo evento. Foi no continente africano que viveram as experiências mais fortes com a peça. "Levamos um choque com o apartheid que ainda vigora por lá. Negros e brancos não se misturam", conta Figueiredo. "É como se estivessem em uma fase de renascimento, com uma aproximação tímida entre as etnias", garante. O festival, no entanto, proporcionou ao elenco de Mulher Caixa a oportunidade de ser um catalisador dessa aproximação. "Puseram-nos na praça da cidade, onde nunca havia sido apresentado teatro antes. O teatro de rua só foi para lá há três anos, mas sempre dentro da universidade", conta o diretor. Reação exaltada - Assim, a população negra estava vendo pela primeira vez um espetáculo feito na rua. "Não realizamos teatro de rua, fazemos teatro onde for. Não gosto desse rótulo", afirma o diretor. Na África encontraram novamente a reação exaltada que tinham vivenciado nas ruas de São Paulo: "A população negra acreditava na Mulher Caixa, me seguiam pedindo para eu adivinhar o futuro ou agradecendo pela esperança que trazíamos", conta Joana. Nas apresentações dentro da universidade o inverso das ruas: há cerca de 400 brancos para cinco negros. "Depois das quatro da tarde os brancos não saem na rua com medo da violência racial que ainda acontece na cidade", relata Joana. A peça foi apresentada durante os nove dias de duração do festival, às vezes com mais de uma apresentação por dia. "A gente teve um encontro com a cultura africana de que tanto se fala no Brasil, mas muitas vezes de maneira equivocada . Só depois dessa viagem consegui ver o quanto a nossa cultura é próxima, até pela reação parecida do público", constata Figueiredo. "Quando ficávamos só nós e os negros era necessário sairmos com seguranças e a população ia atrás do carro, como em um cortejo, era emocionante", relata a atriz. Os contrastes de culturas ficaram evidentes na praça em Grahamstown, onde apresentaram-se em frente da primeira igreja construída pelos colonizadores. "A maioria dos negros concedia à peça um status religioso, ao mesmo tempo que a igreja dos brancos estava vazia durante a nossa apresentação", lembra o diretor. A partir da reação dos diversos públicos que teve ao redor do mundo, Figueiredo traça algumas impressões. "Nos países chamados civilizados não há esse contato tão próximo com a peça, aqui e na África sim", constata. "O africano, assim como o brasileiro, é mais aberto. O teatro nasceu assim, com as pessoas achando que os deuses gregos estavam na representação." É a busca dessa aproximação da cultura brasileira com as mais diversas culturas que impulsiona a companhia Pinus Poft a continuar viajando com a peça A Mulher Caixa ao redor do mundo.

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