A morte sob o olhar absurdo de Ionesco

O teatro incômodo e estranho de Eugène Ionesco está de volta. Mais conhecido por criações como A Cantora Careca e O Rinoceronte, o pai do teatro do absurdo retorna aos palcos do País com um texto raras vezes visto por aqui: A Agonia do Rei.

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2011 | 00h00

Assinada pelo diretor Dudu Sandroni, a peça faz apenas quatro apresentações no Sesc Consolação. Estreou no Rio de Janeiro no início deste ano e foi concebida logo depois que Nova York redescobriu a obra.

Em 2009, o ganhador do Oscar Geoffrey Rush despontou como protagonista de uma montagem norte-americana, dividindo a cena com Susan Sarandon.

A versão reabilitou Ionesco na Broadway - de onde ele andava banido desde 1998. E também despertou a atenção de Sandroni. "Não conhecia o texto. Nem era um grande fã de Ionesco. Essa questão do absurdo nunca me mobilizou. Mas fiquei maravilhado", diz o diretor.

Tanto interesse pode ser explicado pela agudeza das questões mobilizadas: poder, fragilidade e morte. Em cena, o veterano ator Ednei Giovenazzi (que completa 50 anos de carreira) encarna o Rei Bérenger. Trata-se de um soberano que recebe a notícia de que vai morrer, mas recusa-se a aceitar o fato.

Três momentos distintos são perpassados. No início, o monarca nega a morte. Depois, insurge-se contra o fato. Para apenas ao final aceitar que não é perene.

Nada, porém, é tão simples como parece. Ionesco tempera a fábula com suas habituais doses de nonsense. E com tiradas de um humor quase farsesco. O rei tem mais de 400 anos. Seu médico é também um carrasco. Seu palácio está em ruínas e os ministros do reino se afogaram todos em um córrego.

É natural que o estranhamento que permeia a escrita do dramaturgo acabe ditando também os rumos das encenações de suas obras. Não foi essa a opção de Sandroni.

O diretor conta que preferiu deixar todo o absurdo restrito ao texto. "A gente fez o contrário do que se costuma fazer. Pedi aos atores que trouxessem o máximo de verdade à cena, que dessem aos personagens uma dimensão humana."

A AGONIA DO REI

Teatro Anchieta. Rua Dr. Vila Nova, 245, telefone 3234-3000. 5ª a sáb., às 21 h; dom., às 19 h. R$ 8/ R$ 16. Até 7/8.

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