A morte em instalação transcultural

Foi considerando as dificuldades arquitetônicas e de heterogeneidade de público impostas pela pirâmide do Museu do Louvre, em Paris, onde foi originalmente exposta, que À Luz de Dois Mundos, instalação do artista pernambucano Tunga em exibição desde agosto em Salvador, foi concebida. Batizada em francês, À La Lumiere de Deux Mondes, a obra tinha a intenção de poder se comunicar com pessoas de todas as ascendências culturais - ou, nas palavras do autor, ter uma "legibilidade transcultural".

Tiago Décimo, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

O tema da obra, que integrou o calendário do Ano do Brasil na França, também foi inspirado no museu parisiense - e transcende a relação entre vida e morte que a instalação inspira ao primeiro olhar. "Se a gente pensar no Louvre como um baú, ele seria um baú da pilhagem da arte universal", diz. "Ele tem como contrapartida um baú de dizimação, de destruição dos povos que construíram essa arte."

Dessa premissa, saiu a escolha, aleatória, de sete cabeças de esculturas expostas no museu, de movimentos artísticos, datas e origens diversos. Replicadas e envoltas em uma rede, são o lastro de uma balança estilizada que aparenta leveza, mas tem três toneladas de ferro, bronze, resina, cabos de aço e ouro. "É uma balança que pesa a alma", explica Tunga.

Escolha. Fazendo o contrapeso, aparecem crânios de bronze e dourados, sustentados por uma grande trança, como se fosse de cabelo. Entre ambos, uma rede, em que repousa um esqueleto sem crânio - ou cabeça. "De alguma forma, o grande esqueleto deitado na rede solicita o espectador a escolher uma cabeça ou uma caveira", diz o artista.

A instalação causou admiração e espanto aos milhões de frequentadores do Louvre, entre setembro e dezembro de 2005. A repercussão a levou ao P.S.1 do MoMA, de Nova York, onde esteve exposta entre maio de 2007 e janeiro de 2008.

Segundo Tunga, as reações dos visitantes do museu norte-americano foram ainda mais fortes que as verificadas em Paris. "Ali, a peça encontrou um nicho quase arqueológico, cercada por paredes de tijolo descascado", lembra. "Ouvi pessoas falando que não entrariam na sala, por temor."

No Brasil, a instalação está sendo exposta pela primeira vez, na Sala Contemporânea do Palacete das Artes Rodin Bahia. A exposição ganhou o nome de Tunga: À Luz de Dois Mundos e exibe, além da instalação, quatro obras complementares inéditas e peças que explicam o processo criativo de sua confecção, como desenhos e estudos feitos pelo artista.

Cartazes das mostras no Louvre e no P.S.1 do MoMA, além de um vídeo sobre as exposições e uma apresentação do crítico Paulo Sérgio Duarte sobre a obra principal, também estão disponíveis. "São subsídios didáticos que auxiliam na formação de um público consumidor de arte, sobretudo a contemporânea", justifica o diretor de museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), Daniel Rangel - que trabalhou como assistente de Tunga entre 1998 e 2003.

A exposição, que segue até 31 de outubro, integra o Programa Quarta Dimensão, desenvolvido pelo Ipac, que tem como objetivo reunir artistas brasileiros consagrados nos circuitos nacional e internacional das artes visuais e provocar a relação entre o trabalho desses artistas e a obra do escultor francês Auguste Rodin, exposta no Palacete das Artes.

Este ano, já tiveram trabalhos expostos na Sala Contemporânea, como parte do programa, Mario Cravo Neto e Waltercio Caldas. Depois de Tunga, será a vez de José Resende.

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