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A morte e a vida

Sabemos quem morreu, mas ninguém sabe como é experimentar morrer

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2021 | 03h00

Na entrada do mês, lembramos o Dia dos Mortos. Para mim, o Dia de Finados reúne tristeza e alegria, pois, se é devotado a honrar os meus mortos, foi justo nesse dia que nasceu Estela, uma de minhas cinco netas mais amadas.

Neste dia coberto pelo céu da saudade, brilhou uma vida. 

O último Dia dos Mortos foi muito triste, marcado pela perda de uma querida colega. A morte chega sem pedir licença e não deixa dúvida. 

Na minha longa vida, vivi a morte súbita e o fim prolongado. Foi como testemunhar um sequestro ou ver um navio sumindo no horizonte. 

No primeiro tipo de morte, o corpo vai e a alma fica; no segundo, a alma vai e um corpo é a sua testemunha.

A consciência da morte é, sem dúvida, a nossa maior complicação. É o centro dos absurdos elaborados em linguagem perturbadora por Albert Camus no livro O Mito de Sísifo. E, para ficar ainda mais complicada, ela é dupla.

O seu primeiro mistério jaz no fato de ela ser a maior experiência humana que, no entanto, não é compartilhada. Sabemos quem morreu, mas ninguém sabe como é experimentar morrer. Se somos construídos por relações, a morte traz à cena uma solitária imobilidade. Ela é individual, mas deixa o morto com o qual temos o contraditório compromisso de pranteá-lo e abandoná-lo...

A rede social que ocupava tem de ser refeita pelo sepultamento e luto que redesenham os laços entre os vivos e mortos. O luto é a parte que nos cabe na morte: é o principal trabalho do morto, quando nos congrega para legitimar socialmente o fim de seu lugar neste mundo.

Elaborei este tema no livro A Casa & a Rua (publicado em 1997). Sugeri ali que, no Brasil, a morte mata, mas os mortos não morrem. Os seus laços com os vivos não deixam que eles se esvaneçam no “outro mundo”, um espaço complementar ao da “casa” e da “rua” – na triangulação da cosmologia brasileira. Também sugeri que a modernidade individualista (que matou Deus) se preocupa mais com a morte como absurdo ou obstáculo a ser vencido pela ciência, enquanto nas sociedades relacionais, nas quais há uma permanente tensão entre casa e rua, é o morto que importa. Aceita-se a morte como um fato da vida, mas o morto põe à prova o nosso amor ou indiferença. 

A saudade presente nos túmulos e nas cartas de amor, conforme aprendi com Joaquim Nabuco, testemunha a nossa resignação diante de um ente amado.

PS: Nesta crônica triste, registro a alegria da eleição de Gilberto Gil para a Academia Brasileira de Letras. 

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