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A morte dos periquitos

Uma professora parou o carro, viu periquitos no ar e estranhou: não era uma revoada, as aves caíam mortas na calçada de um condomínio, não longe do centro de Manaus.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2014 | 02h05

Pencas de periquitos espalhados na calçada larga, no gramado com palmeiras imperiais e no asfalto. Dizem que eles estragavam as folhas das palmeiras e faziam estardalhaço, daí o suposto envenenamento dos bichinhos. Eu, que não sou ornitólogo e desconheço a linguagem dos pássaros, lamento a morte desses pequenos seres alados, que viajaram das matas do rio Amazonas ou do Madeira para comer sementes e frutinhas em Manaus. Para morrer em Manaus.

Envenenamento, suicídio coletivo ou um tremendo exercício de malvadeza? Se todos os dias vários jovens são executados na periferia das cidades brasileiras, por que um homem não envenenaria periquitos intrusos num condomínio de luxo?

Para proteger uma palmeira imperial, essa sim, uma intrusa na floresta amazônica, matam-se essas aves tricolores, que se alimentam durante o crepúsculo e depois fazem uma algazarra no espaço, enchendo o céu com gritos de alegria e cores.

Até o final da década de 1960 não havia condomínios e edifícios luxuosos em Manaus. Nem periquitos-de-asa-branca, pois àquela época eles não costumavam migrar para a cidade. No condomínio onde morreram, um igarapé de águas limpas e escuras serpenteava a floresta, nas franjas da cidade ainda pequena. Era uma área com belos balneários, numa época em que o mundo urbano ainda convivia em harmonia com a natureza. Nessa Manaus com ares provincianos, a notícia de um assassinato era um escândalo, e os rumores de um adultério viravam uma fofoca romanesca, que excitava a imaginação das personagens que se moviam no grande palco da província.

Hoje, na metrópole industrial, a violência e os assassinatos já não surpreendem mais ninguém. Perdemos quase por completo a noção de civilidade e justiça.

Pobres aves tricolores! Fujam da cidade hostil, das fortalezas falsamente coloniais, ornadas com palmeiras estranhas e encapotadas... Fujam do céu de fuligem, do ar envenenado pela fumaça da floresta queimada. Ouçam o canto do poeta:

A terra não é terra, e sim pedra/

Não é a mãe que segurava

os homens na queda/

E sim pedra:/

Não a mãe, e sim uma

opressora, mas/

Uma opressora que inveja

a morte deles/

Enquanto inveja a vida

dos que vivem...

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