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Mario Vargas Llosa
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A morte do amigo

Sua paixão eram as belas artes, mas a literatura também o atraía

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2017 | 02h00

Eram 3 da madrugada em Moscou quando tocou o telefone. Minha filha Morgana chamava para dizer que Lila e Fernando de Szyszlo haviam morrido, caindo da escada em sua casa. Não consegui mais dormir. Passei o resto da noite paralisado por um atordoamento estúpido e uma sensação de horror.

De tanto ouvir Szyszlo (Godi, para os amigos) dizer que não queria sobreviver a Lila, que se ela morresse primeiro ele se mataria, pensei que talvez houvesse acontecido isso. Mas, minutos depois, quando consegui falar com Vicente, filho de Szyszlo, que ainda tremia junto aos cadáveres, ele confirmou que havia sido um acidente. Mais tarde, alguém me informaria que os dois morreram de mãos dadas. A morte fora instantânea, ocasionada por idênticas fraturas dos crânios.

O que me resta de vida não será a mesma coisa sem Godi, o melhor dos amigos. Ele foi um grande artista, um dos últimos entre os pintores a que se podia aplicar esse adjetivo com justiça, além de uma pessoa esplêndida. Culto, agradável, divertido, leal, enriquecia a noite com seus causos e piadas quando estava de bom humor. Seus julgamentos eram agudos e certeiros quando falava de pessoas que havia conhecido e admirava, como Tamayo, Breton ou Octavio Paz. Havia nele uma decência indestrutível ao falar de política ou do Peru, com uma ausência total oportunismo ou cautela, uma integridade que, sem que ele procurasse, e para seu desgosto, foi convertendo-o em seu país em uma autoridade moral cuja opinião era solicitada sobre todos os temas. Quando estava de mau humor, se fechava num mutismo monossilábico, numa imobilidade de estátua, e seu nariz escorria. 

Sua paixão, claro, eram as artes plásticas, mas a literatura também o apaixonava. Lera muito, voltando sempre a seus autores favoritos, e era uma delícia para a inteligência ouvi-lo falar de Proust, Borges, e ouvi-lo recitar de memória os sonetos mais barrocos de Quevedo ou o poema de amor que Doris Gibson inspirou a Emilio Adolfo Westphalen. 

Quando o conheci, em julho ou agosto de 1958, estava casado com Blanca Varela. Viviam num pequeno loft em Santa Beatriz, que servia de residência e estúdio. Desde o primeiro instante, soube que seríamos amigos íntimos. A amizade é tão misteriosa quanto o amor, e a amizade de Blanca e Godi foi uma das melhores coisas que me aconteceram na vida. Devo a ela experiências estimulantes, cálidas, dessas que nos fazem esquecer os maus momentos e nos revelam que, feitas as contas, a vida, apesar de tudo, vale a pena ser vivida. 

Blanca e Godi casaram-se muito jovens e foram excelentes companheiros. Ambos se ajudaram para ele ser um pintor magnífico, e ela, uma poeta delicada e sensível. Mas o grande amor-paixão de Szyszlo foi Lila, uma mulher maravilhosa que o compreendeu melhor que ninguém e lhe deu essa coisa elusiva e tão difícil que é a felicidade. 

Lembro-me agora da alegria que faiscava em cada linha da carta que me escreveu quando por fim puderam se casar. Pensando bem, compartilhar esse final tão rápido e dramático talvez tenha sido a melhor maneira que tiveram de morrer. O problema já não é deles, é dos que continuam aqui, “intolerável quando o recordamos”, como diz o poema de César Moro, outro que Godi tinha intacto na memória.

Creio que Godi sempre esteve por perto, ajudando-me com sua generosa amizade, em quase todas as coisas importantes que me aconteceram. Nunca pude lhe agradecer suficientemente por, nos três anos em que as circunstâncias me empurraram para a política, se dedicar também ele, de corpo e alma, a essa atividade tão pouco condizente com seu caráter, e, com outros dois amigos - Cartucho Miró Quesada e Pipo Thorndike -, exercer a mais delicada e incômoda das responsabilidades: controlar a lisura da arrecadação e gastos da campanha. 

É claro que foi ele a primeira pessoa que pensei convidar quando fui receber o Prêmio Nobel de Literatura - e ele compareceu, apesar da viagem interminável e dos transtornos que as longas travessias de avião infligiam à sua saúde. Prometeu-me muitas vezes que me acompanharia se meus livros fossem incorporados à Plêiade - de fato, logo apareceu em Paris, com Vicente. Sua intervenção no Instituto Cervantes foi a mais pessoal e festejada de todas. 

Muitas vezes o vi enfrentar, com estoicismo, as decepções tão frequentes na vida peruana. Mas houve uma que o desmontou e que não pôde superar nunca: a morte do filho Lorenzo, em um acidente de aviação. Era uma ferida que sangrava sem parar, inclusive naqueles períodos mais produtivos, em que parecia mais animado. Nunca me esquecerei da extraordinária elegância com que absorveu aquela carta aberta, tão mesquinha, de seus colegas peruanos que protestavam porque quiseram dar seu nome a um museu de arte moderna de Lima.

 

Nesta manhã, enquanto eu visitava a Galeria Tretiakov, sem deixar de pensar um só minuto em Godi, imaginei quanto melhor teria sido essa escolha para a Rússia artística dos anos 1910 e 20, a de Kandinski, Chagall, Malevich, Tatlin, Goncharova e tantos outros. E me lembrei de quanto aprendi a seu lado, visitando exposições e ouvindo-o falar da própria pintura, algo que raramente fazia e sempre para lamentar que cada quadro que saía de seu ateliê era, não importando o trabalho que dera, “uma derrota irremediável”. 

Estava mais que triste com a grande confusão que caracteriza a arte em nossos dias, como confessou na autobiografia, publicada em janeiro (Alfaguara) - com as vigarices que se perpetram e são consolidadas por críticos e galeristas sem escrúpulos e por colecionadores gananciosos e insensíveis. Ele nunca enganou ninguém e penou para seguir adiante desde que abandonou seus estudos de arquitetura e começou a pintar, ainda muito jovem, quadros ligeiramente influenciados pelo cubismo.

 

Desde que descobriu a arte não figurativa, entregou-se a ela com disciplina, perseverança e tenacidade, redescobrindo pouco a pouco, com o passar dos anos, a realidade de seu país. A arte dos antigos peruanos se tornaria uma obsessão em sua idade adulta e se insinuaria em suas pinturas, confundindo-se com as formas e cores mais ousadas da vanguarda até levar a esse mundo próprio, de misteriosos aposentos solitários e geométricos que têm algo de templo e de sala de tortura, habitados por estranhos símbolos e totens que, com suas sementes, nudez, incisões, fendas e meias-luas, sugerem um mundo bárbaro, anterior à razão, feito apenas de instinto, magia e medo. 

Apesar de toda sua lucidez, provavelmente nem ele conseguiria explicar tudo aquilo que sua pintura evoca e mescla e que a clarividência de sua intuição, seu talento de artesão, integram nesses belos quadros inquietantes, incômodos e perturbadores. Agora que ele se foi, resta-nos sua pintura. Estou certo de que ela viverá mais que sua geração, que a minha e que muitas outras mais. 

O mundo a meu redor vai se despovoando e ficando cada dia mais vazio. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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