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A morte de um cantor

Com a perda de Aznavour, todas as outras notícias perderam a sua importância

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

03 Outubro 2018 | 02h00

Um cantor morre, Charles Aznavour. Ele estava idoso (94 anos). Até segunda-feira, ainda estava em forma. Ele passou a noite divertindo-se com os amigos, e de manhã estava morto. E, na hora seguinte à notícia, a França chora, geme, relembra lembranças, sussurra entre os dentes as canções que ele cantou e que fizeram dele uma estrela mundial. Todas as outras notícias (política, econômica, tsunami, jihad, migrantes Donald Trump, Emmanuel Macron) subitamente perdem sua importância. Caem no abismo aberto por esta morte.

Todas as emissoras de rádio passam a transmitir uma torrente de memórias intermináveis. Centenas de homens e mulheres são convocados para cantar diante dos microfones os trechos das canções de Aznavour das quais se lembram. Outras emissões convocam senhoras de idade, jovens, homens idosos e novos que relembram do dia de seus casamentos, ou da noite na qual seu avô morreu, ou quando a menina foi aprovada no exame de contador; para tudo há uma canção de Aznavour marcada em sua memória. Os maiores jornalistas desfilam nas TVs para nos dizer que um dia almoçaram com Aznavour ou cruzaram com Aznavour em um trem...

Pode ser que a França seja um país estranho, ou, em outros países, no Brasil, por exemplo, o desaparecimento de um cantor famoso também pode paralisar um país e deixar em suspenso todos os processos pendentes, enquanto as estações de rádio e TV dedicam dois, três, quatro ou cinco dias para reunir testemunhas notificadas para contar pela décima vez a menos importante das histórias. “A primeira vez que eu dormi com um rapaz, ele estava em um ritmo de Aznavour” ou “quando eu perdi metade das minhas poupanças no mercado de ações, fui para casa. Estava chorando e então escutei Aznavour”, etc. etc. Nós vimos o mesmo entusiasmo popular algumas semanas atrás, quando Johnny Halliday, um outro cantor, morreu.

É verdade que Aznavour era um homem notável. Sua vida é magnífica. Era uma criança de origem armênia, mas nascido na França, em uma família pobre e em toda a sua vida, ele foi tão fiel à Armênia como à França. Foi realmente um franco-armênio, um bom exemplo de integração bem-sucedida, num momento em que a xenofobia, o ódio aos estrangeiros em França e em toda a Europa, está em fúria. Um belo exemplo de integração.

Aznavour foi um bravo. Na década de 1970, parece-me, esse homem que sempre amou as mulheres com paixão, teve a audácia de escrever uma canção denunciando ao seu modo a ignóbil “homofobia” que então prevalecia na França.

Coragem também para se tornar o que ele era: não se destacava pela aparência. Pequeno e frágil, um nariz pouco torto (ele vai corrigir quando ele tem condições), sem um físico marcante e uma voz singular. Todos esses fatores combinados explicam que suas primeiras aparições foram ridicularizadas: como se atreve ele a cantar em público com esse aspecto? Os críticos gritaram copiosamente contra ele.

Mas o milagre se realiza – ignorando as críticas, o público o adotou e não mais o deixou ir. Jornalistas se manifestam para dizer que, afinal de contas, ele não era tão ruim assim, aquele pequeno armênio desajeitado. Sua fama está crescendo. Tornou-se global e Frank Sinatra gosta dele. E o príncipe dos cantores poetas, Bob Dylan, o reconhece como um dos melhores intérpretes do mundo.

Ele foi chamado pelo cinema e descobrimos um grande ator, cerca de cinquenta filmes nos quais ele atua de igual para igual com os maiores. Esse é o romance muito comovente de um pequeno armênio, filho de emigrantes caçados pelos responsáveis pelo genocídio de 1915, criado na França e elevado ao mais alto dos estágios da glória. Sim. Podemos preferir outros cantores, outros compositores, outras músicas.

Por exemplo, na França, Charles Trenet, Léo Ferré, Georges Brassens e Serge Gainsbourg, ou outros, mas era ele que tinha tudo para se tornar um ícone popular de alta qualidade. Seu destino é exemplar. É por isso que hoje todo um povo não sabe se deve chorar ou cantarolar uma das músicas que o pequeno franco-armênio tornou famosas em Moscou, Londres e Hollywood. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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