A morte de Patricia Neal, dama das telas

Atriz de 84 anos estava em clínica de reabilitação em Los Angeles

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2010 | 00h00

Patricia Neal tinha 21 anos quando coestrelou The Fountainhed (Bravura Indômita), de King Vidor, com Gary Cooper, em 1949. Ele já tinha 48 anos. Patricia engravidou, a mulher de Cooper lhe enviou um telegrama dizendo que o affair estava encerrado e o próprio amante pediu que ela abortasse. Tudo isso foi muito escandaloso para a Hollywood da época e Patricia, além de devastada emocionalmente, foi discriminada como "destruidora de lares".

 

 

 

Sucesso e dor. Ganhou o Oscar por Hud, O Indomado, em 1964, e teve uma vida marcada por tragédias

 

Vale lembrar que, na mesma época, Ingrid Bergman largara do marido para ficar com o cineasta italiano Roberto Rossellini. Ingrid já era estrela e comeu o pão que o Diabo amassou. Patricia era pouco mais que estreante. Quem ela pensava que era?, perguntavam-se executivos de estúdios e fofoqueiros profissionais. Patricia morreu domingo na clínica de reabilitação que leva seu nome, em Los Ângeles. Tinha 84 anos.

 

Não sendo extraordinariamente bela, ela foi, na sua grande fase, aclamada pela sensualidade e pelo talento. Mas nunca teve muita sorte, nem na vida nem nem na carreira. Os franceses cunharam uma expressão - diziam que ela tinha "mauvaise étoile", a má estrela. Um filho sofreu grave acidente de carro aos 4 meses, outra morreu de sarampo aos 7 anos e a própria Patricia teve três derrames sucessivos quando filmava Sete Mulheres com John Ford. Ela ficou um tempão no coma, do qual ressurgiu com sequelas.

 

Na época, era casada com o escritor Roald Dahl, que a apoiou durante o longo e complicado processo de recuperação. Patricia recobrou movimentos, fala, mas nunca voltou a ser 100% e a memória foi atingida para sempre. Antes disso, havia participado de filmes que fizeram história: a primeira versão de O Dia em Que a Terra Parou, de Robert Wise; Bonequinha de Luxo, de Blake Edwards, como a ricaça que paga pela atenção de George Peppard; e Hud, O Indomado, de Martin Ritt, como a mulher mais velha e sem atrativos seduzida por Paul Newman. Foi o papel que lhe deu o Oscar (em 1964).

 

Solidariedade. Mas o mais belo e maduro momento de Patricia no cinema talvez tenha sido no clássico de Otto Preminger, A Primeira Vitória. O filme começa com o ataque japonês à base de Pearl Harbour. John Wayne faz um militar tão sólido que seu nome é Rockwell, de rocha. Patricia faz a enfermeira que está a seu lado quando ele desperta após a cirurgia de amputação da perna, atingida por um estilhaço. A cena é um modelo de economia. Minimalista, nada de grandes dramas. Patricia, até por sua história de vida, não precisava de muito mais para expressar dor, e solidariedade. Ela nasceu Patsy Louise Neal no Kentucky e, além do Oscar, ganhou outros prêmios importantes, o Tony e dois Baftas, o Oscar inglês (por Hud e A Primeira Vitória). Foi uma grande dama do teatro e cinema, com passagens ocasionais, mas elogiadas, por séries e teleteatros.

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