AFP PHOTO / STF
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A morte de Givenchy

Recolhimento do estilista era provavelmente uma característica da aristocracia, mas talvez se devesse também à visão meio desencantada, embora despida de amargura, que ele parecia ter da modernidade

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

14 Março 2018 | 09h14

Havia anos que não se falava do costureiro Hubert Taffin de Givenchy. Sabia-se que vivia em uma de suas residências — o apartamento no bairro “VIIº”, o mais aristocrático de Paris, bairro das princesas e condessas do escritor Marcel Proust de Em Busca do Tempo Perdido, ou um de seus solares no campo. Essa discrição é em parte explicada pela idade avançada (morreu aos 91 anos) e pela reserva típica da mais alta e antiga aristocracia francesa, da qual Givenchy era filho. Bastava olhar para ele para se sentir de onde vinha: Givenchy era a própria elegância, muito bonito, com o porte de um galã de Hollywood. Ainda muito jovem, ficou fascinado pela obra de outro grande costureiro, o espanhol Cristóbal Balenciaga, que lutou para conhecer e mais tarde teria um papel decisivo em sua carreira.

Decidido a ser costureiro, Givenchy entrou aos 17 anos na Escola de Belas Artes de Paris. Estávamos no início do pós-guerra e Paris se tornara uma cidade enlouquecida. Talentos explodiam por todos os lados, em todas as formas de criação. Na literatura havia Jean-Paul Sartre, os últimos surrealistas, Boris Vian, etc... Na música, Léo Verré, Georges Brassens, os Irmãos Jacques, as Caves de Saint Germain. Logo viria Brigitte Bardot... A alta costura não deixou por menos. Ela entraria nessa época dourada com figuras como Jacques Fath e Chistian Dior.

O jovem Hubert de Givenchy estava no centro da festa. Em 1952, aos 24 anos, lançou sua maison de couture. A partir daquele momento, os padrões da moda não seriam mais os mesmos. Ele criou os trajes separáveis, para que as mulheres pudessem elas mesmas combinar suas roupas e modelar os corpos. 

O gosto refinado e as amizades teceram o fio dourado que conduziu seu destino de Givenchy. Em 1953, ele se encontrou finalmente com seu ídolo, o famos Balenciaga, que se tornaria um de seus melhores amigos. Mas houve outro encontro fulminante. Um dia, foi anunciada a vinda a seu ateliê de “mademoiselle Hepburn”. Givenchy preparou-se para recebê-la com pompa. Ele achava que se tratava da grande Katherine Hepburn, a diva de Hollywood. Quem chegou foi uma jovem também de sobrenome Hepburn, mas de prenome Audrey. Nasceu ali, de uma confusão, uma amizade que duraria até a morte de Audrey. Para ela, Givenchy mais tarde criaria o famoso vestido negro que usaria no filme Bonequinha de Luxo. Assim foi se formando uma coleção de mulheres sublimes vestidas por Givenchy: além de Audrey, Jackie Kennedy, Farah Diba, a duquesa de Windsor, a inesquecível Liz Taylor...

A fulgurante temporada de Givenchy, príncipe da elegância e do bom gosto, durou 40 anos. Terminou em 1988, quando ele vendeu a maison para, em 1999, anunciar, sem nenhum amargor, a aposentadoria. Aquele homem extremamente requintado começaria a cultivar a outros fascínios, sempre ligados à beleza e à história. Para decorar suas próprias casas, reuniu uma coleção exepcional de móveis do século 19. Estava já menos presente aos salões parisienses, mas sempre ativo. Presidiu a Fundação Cristóbal Balenciaga e a Christie’s França. Publicou um belo livro denominado To Audrey, with Love, um rico volume cheio de croquis de roupas que imaginou para a atriz e amiga. Discreto, o ex-príncipe de Paris foi se retirando na ponta dos pés, a partir dos anos 1960, daqueles salões que animava e amava.

Pouco se sabe da vida privada desse homem tão ensimesmado. Seu recolhimento era provavelmente uma característica da aristocracia, mas talvez se devesse também à visão meio desencantada, embora despida de amargura, que ele parecia ter da modernidade. Givenchy foi um dais belos atores da grande temporada da moda, dos anos 1960 aos anos 1980. Aparentemente, porém, não tinha vontade de participar de um jogo que já não conhecia. Em que se transformou a moda daqueles lindos anos e esquecidos anos? Uma vez, com a costumeira discrição, Givenchy deu a entender que a moda do século 21 havia cedido à tentação do “de qualquer jeito”. 

 Sem lamento nem raiva, talvez com uma ponta de  melancolia, Givenchy partiu para juntar-se a seus amigos inesquecíveis. Ele sem  dúvida dúvida conheceu o perturbador poema medieval de Rutebeuf:

“Que aconteceu com meus amigos

tão queridos, que tanto amei?

Desapareceram todos:  

acho que o vento os levou. 

O amor? O amor morreu”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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