A MORTE DE DAMIANI

Diretor foi um dos artífices dos filmes políticos italianos dos anos 1970

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2013 | 02h11

Há anos ele estava aposentado, mas Damiano Damiani, que morreu na madrugada de ontem em Roma, de insuficiência respiratória, aos 90 anos, foi um diretor importante nos anos 1960 e 70. É verdade que Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, faz uma ressalva. Diz que a obra de Damiani é curiosamente desequilibrada e é mesmo. Como diretor, ele fez escolhas que parecem disparatadas. Estreou com um policial (O Batom), fez filmes intimistas (A Ilha dos Amores Proibidos), eróticos (A Feiticeira do Amor), spaghetti westerns (Gringo) e forneceu ao cinema político italiano, por volta de 1970, alguns de seus títulos célebres, Confissões de Um Comissário de Polícia ao Procurador da República e Só Resta Esquecer, ambos com Franco Nero.

Hoje em dia, em nome da correção política, um filme como O Batom talvez não fosse mais possível, ou Damiani teria de mudar o final - para mostrar como o personagem de Pierre Brice era imoral (e aproveitador), o relato deixa para a última cena a revelação da identidade da namorada do homem que vive de seduzir mulheres fragilizadas - e ela entra numa sala se arrastando com a ajuda de muletas. A cena seria considerada intolerável e o filme, por sinal, sumiu, como boa parte da produção italiana da época (apesar do esforço do resgaste em DVD pela distribuidora Versátil).

A Ilha dos Amores Proibidos aborda os jogos sexuais de adolescentes, A Feiticeira do Amor baseia-se em Carlos Fuentes - e Rossana Schiaffino era um assombro em 1966, embora a liberalidade dos costumes talvez tenha tornado recatadas o que pareciam as ousadias eróticas do cineasta, há mais de 40 anos. Confissões e Só Resta Esquecer, sobre a polícia e o sistema penitenciário, são thrillers políticos e, como os de Costa-Gavras, os críticos, ingenuamente, diziam que Damiani era reformista, não revolucionário. Criticava o abuso do poder, não as estruturas do poder burguês.

Mas anos antes, e também em 1966, Damiani fora revolucionário em Gringo (Quien Sabe?), um dos grandes, senão o maior dos spaghetti westerns (e isso apesar dos bangue-bangues operísticos de Sergio Leone). O problema com ele é que fez muitos filmes sem que se possa identificar uma necessidade visceral na realização. Dirigiu uma adaptação de Alberto Moravia que foi um fiasco - La Noia/Vidas Vazias. Fez até um terror, na série Amityville). O desequilíbrio e o disparate vêm daí, mas nos seus melhores momentos Damiani foi grande - não por acaso, Carlos Reichenbach o adorava.

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