A morte como o sentido do eros

Sob a bruta turvação de um temporal que movimenta árvores e compete com os estrondos do mar, aturdido diante de um "castelo mal-assombrado" e do objeto de sua busca e fascínio, o protagonista de História do Olho, de Georges Bataille, chora. Os elementos da natureza não constituem uma paisagem ordinária e habitual. São aparições súbitas e perturbadoras de uma força incivil, condição para que a escrita do texto se realize em uma poética de amor e morte.

Carlos de Brito e Mello, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

"Caminhei quase a noite inteira à beira-mar, mas sem me afastar muito de x, devido à sinuosidade da costa", informa o narrador. Indeterminado, "x", lugar em cuja praia ele conhece a amante Simone, marca um enigma, denunciando a instância de falta em torno da qual a narrativa se desenvolverá. No livro, tornar-se leal aos acontecimentos significa alcançar a dimensão fantasmagórica da escrita para a qual os personagens, gozosamente, se destinam.

O enigma é a morte, sentido último do erotismo, segundo o autor. Intensificar o prazer, exagerando-o, resulta em transbordamentos e perdas: a urina, as fezes, o esperma e o sangue compõem uma "imundície abundante" que caracteriza tanto a vitalidade quanto o desfazimento do organismo. O sol, o ânus, o ovo e a roda tornam-se representantes de uma perspectiva que se vinculou inextrincável e violentamente às propriedades de um olho, órgão dotado de uma ausência central, de um furo a partir do qual a visão se forma, mas incapaz, pela mesma razão, de conter "tudo o que arruína definitivamente a beatitude e a consciência tranquila".

O vento que deslocava os cabelos dos personagens diante do castelo é a própria escrita que passa no céu devassado do texto de Bataille. Os organismos se dissolvem no processo de escritura como o grafite do lápis deve desfazer-se de si mesmo, num morrer pelo atrito.

Para o autor, o erotismo está relacionado a uma violação primordial. Arrastando o prazer para uma zona de morbidez experimentada na literalidade da carne, a "relação amorosa tão íntima e urgente" celebrada pelos personagens faz de amar, amarra: "era como se eu quisesse escapar do abraço de um monstro, e esse monstro era a violência de meus movimentos." Se a morte está no horizonte de todo jogo erótico, no ato sexual morre-se sempre e incessantemente. Esse perigo é também próprio de uma escrita que, ao tangenciar o real, nos vergasta e nos fascina.

CARLOS DE BRITO E MELLO, ESCRITOR, É AUTOR DE A PASSAGEM TENSA DOS CORPOS (COMPANHIA DAS LETRAS)

HISTÓRIA DO OLHO

Autor: Georges Battaile

Tradução: Eliane Robert Moraes

Editora: Cosac Naify

(138 págs., R$ 56)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.