A morte bate à porta

A atriz Clara Carvalho estreia na direção com Os Órfãos, espetáculo que disseca preconceitos e medos escondidos

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2012 | 03h10

O terror pode surgir quando menos se espera. Ameaçar o que parecia mais seguro e protegido. Os Órfãos - peça do britânico Dennis Kelly, em cartaz no Teatro Nair Bello - examina a violência que irrompe, sem aviso prévio, dentro de uma modelar casa de classe média.

Primeira incursão da atriz Clara Carvalho na direção, a montagem flagra uma noite aparentemente prosaica na rotina de um casal. Estão jantando à mesa, escolhem uma canção para tocar, abrem um vinho. Aproveitam a ausência do filho pequeno, que passeia na casa da avó.

Todo esse idílico quadro, porém, irá ruir diante do espectador. Em meio ao jantar, o irmão da protagonista surgirá na sala com uma camisa manchada de sangue. Eis o único acontecimento da trama. A partir daí, será apenas pelo manejo das palavras que o dramaturgo conduzirá o suspense instaurado. "Existe uma violência absurda na obra, que vai sendo revelada só pela linguagem", observa a diretora. "Algo que lembra um pouco o estilo de (Harold) Pinter."

Aos 42 anos, Dennis Kelly é também roteirista de TV. Para a rede BBC, escreveu séries como Pulling, um sitcom sobre a rotina de três amigas solteiras. No teatro, sua tônica é diferente. Ainda que seus diálogos guardem laivos de humor, o dramaturgo costuma vasculhar sem melindres temas contundentes. Em suas peças mais conhecidas, Osama The Hero (2005) e Love and Money (2006) a violência é o traço dominante, a irmanar tanto aspectos políticos quanto privados da vida contemporânea.

Os Órfãos foi escrita em 2009 e arrebatou as atenções do Festival de Edimburgo naquele ano. Em sua temática, a obra talvez lembre um pouco outras criações concebidas depois do 11 de Setembro. Tal qual em Sábado, o belo romance de Ian McEwan, a peça também evidencia quão frágil e precária é a "ilha" de conforto na qual a classe média julga viver. A diferença de Kelly está na maneira de flagrar essa fragilidade: seco, duro, sem muita compaixão por seus personagens. "Ele brinca com suspensões e silêncios. Cria um texto ao mesmo tempo bruto e sofisticado", opina Clara.

Por algum tempo, a protagonista Helen (Isabella Lemos) acreditou que fosse possível resguardar a felicidade doméstica da brutalidade do mundo. Por algum tempo, mas não para sempre. Quando entra em casa ensanguentado, seu irmão Liam (Renaldo Taunay) trará consigo todo o lado negro que ela tanto se esforçou por manter à parte.

Ao encontrar um menino esfaqueado na rua, Liam teria parado para socorrê-lo. Essa é a primeira versão apresentada. História que irá se esgarçar gradativamente.

Ao propor que chamem a polícia, Danny (Marcelo Pacífico), o marido de Helen, instaura o dilema moral que atravessará o espetáculo. Liam não socorreu um menino ferido. Foi ele mesmo o agressor. A vítima também não era propriamente um menino, mas um homem, pai de família, imigrante árabe.

No afã de proteger o irmão, Helen enreda o marido em uma rede de chantagens: contrapõe o afeto familiar - capaz de relevar tudo - à indiferença com a qual os outros devem ser tratados. Ou, pode-se supor, com a mesma indiferença com que esses dois irmãos órfãos foram tratados desde crianças. Faria sentido arriscar a segurança de quem amamos para sermos justos com um desconhecido?

Questão premente do velho mundo, a xenofobia não está distante como parece. Afinal, qualquer civilização que julga existir um "nós", diferente e mais valioso que "eles", não é mais do que um arremedo de civilização.

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