A morte ao pé da letra

Diário de Luto, de Roland Barthes, escrito sob o impacto da perda de sua mãe, retoma um tema recorrente da literatura - seja pela dramática universalidade que carrega em si mesmo, seja por funcionar como meio, às vezes único, de superação

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2011 | 00h00

A morte tem sido uma companheira inseparável da literatura contemporânea, de Franz Kafka a Thomas Pynchon, passando por Italo Svevo, James Joyce, Thomas Mann e Simone de Beauvoir. Ela ronda não só a produção de romancistas como a de dramaturgos, chegando ao teatro em peças de Samuel Beckett, Eugene O"Neill, Tennessee Williams e, mais recentemente, Edward Bond. Reina especialmente em território poético - e, só para citar dois de seus modernos súditos, Sylvia Plath e Robert Lowell serviram-se dela como tema de seus poemas e acabaram consumidos por uma experiência extrema, chegando tragicamente ao suicídio, mesmo destino do filósofo franco-austríaco André Görz (1923-2007), que fez um pacto de morte com a mulher (vítima de uma doença terminal), dividindo com ela uma injeção letal e deixando um livro emocionante sobre a relação amorosa dos dois, Carta a D. - História de Um Amor (Cosac Naify, 2008).

O escritor, semiólogo e teórico francês Roland Barthes (1915-1980) não chegou a tanto, mas viveu pouco tempo após a morte da mãe, em 25 de outubro de 1977. É provável, aliás, que o atropelamento que o matou, em 25 de março de 1980, tenha sido provocado por distração - ou indiferença - de um homem deprimido pela tragédia do desaparecimento da mãe. Sinais não faltam. Eles são mesmo nítidos no póstumo Diário de Luto - que ganha edição brasileira -, livro que reúne anotações do escritor sobre o sofrimento causado pela ausência de Henriette Binger, morta aos 84 anos, após prolongada doença.

Cicatriz. O luto, como diz Gary Indiana no texto da página ao lado - publicado no novo número da Bookforum, que acaba de sair nos EUA -, é uma cicatriz ressurgente na paisagem cotidiana. Ele afirma isso a propósito das memórias da escritora americana Joan Didion, Blue Nights, que perdeu a filha adotiva e ficou ainda mais perturbada que sua personagem Mary Wyeth de Play It as It Lays (1970). Nesse notável romance, levado ao cinema por Frank Perry, a atriz é conduzida a um sanatório após uma vida de excessos (álcool, drogas, amantes) e luto (ela perde cedo o pai e a mãe e é obrigada a um aborto pelo amante).

No caso de Didion, é certo que ela escreveu Blue Nights para exorcizar a lembrança da morte da filha Quintana. Barthes, não. Ele não quer esquecer a mãe. Faz da primeira noite de luto sua primeira noite de núpcias com ela, deitando em seu leito de morte, ele que se considerava o anti-Édipo e jamais conheceu corpo de mulher (o escritor era gay). Barthes, confessional ao extremo em seu diário, certamente pretendia publicá-lo, considerando a explicação de sua organizadora, Nathalie Léger, ao justificar a razão de ter reunido 330 fichas com notas breves e dispersas sobre o luto do semiólogo. "O leitor é apresentado não a um livro concluído pelo autor, mas a uma hipótese de livro." E essa hipótese é uma espécie de negativo de Fragmentos de Um Discurso Amoroso, sua popular obra sobre o desejo.

Transposto para o leito de morte da mãe, esse discurso vira um elogio fúnebre duradouro. Dois anos se passam entre o primeiro (1977) e último (1979) registro, que tem algo de proustiano, especialmente por estar sempre evocando sons e odores familiares. Mas, como Proust, ele acaba concluindo ser um trabalho inútil evocar o passado. Proust, logo no primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido (No Caminho de Swann), enfatiza que o passado "se dissimula em algum objeto material insuspeito". Para Barthes, ele chega por meio do som das ferragens das latas de lixo que, na manhã de 27 de outubro de 1977, dois dias após a morte da mãe, traz à lembrança do escritor o alívio que Henriette sentiu ao ouvir esse mesmo barulho a anunciar o fim de sua noite de agonia atroz.

Errático. Viúva aos 23 anos, Henriette não voltou a se casar. Passou toda a vida ao lado do filho. Também por isso, Barthes resiste à ideia psicanalítica de um "luto submisso ao tempo". Não há arranjo possível para esse pesar. Esse luto não se desgasta. É errático, eternamente presente. O luto passa. A tristeza, não. E é o que faz Barthes escrever esse diário deliberadamente repetitivo, absurdamente ambíguo, mas caloroso e descaradamente honesto. Há passagens nesse diário que esclarecem - e muito - trechos enigmáticos do último livro do semiólogo publicado em vida, A Câmara Clara (redigido entre abril e junho de 1979, três meses antes de concluir Diário de Luto).

Em A Câmara Clara, livro com trânsito direto para a antropologia, Barthes brinca com os efeitos de sobreposição da "camera lucida" para concluir que o essencial talvez não esteja na imagem fotográfica em si, mas num elemento externo que se evidencia por meio dela. Em Diário de Luto, Barthes busca desesperadamente - e acha - a imagem da mãe que serve de pretexto para a segunda metade de A Câmara Clara, concluindo não ter encontrado nada além de uma catástrofe. Quando o sujeito está morto, diz ele - e, no caso, ele é a própria mãe -, então seus medos são sepultados no passado. Não haverá, portanto, mais futuro - ou melhor, ele até virá, mas carregado de passado, inútil após a morte daquela que transformou sua vida numa composição atonal, numa permanente e insana vigília.

Psicanálise. Se Barthes fosse amigo de Foucault, Diário de Luto estaria inevitavelmente contaminado pelo discurso psicanalítico. Mas Barthes nem tinha pai para matar - o oficial da Marinha Louis Barthes foi morto, na 1.ª Guerra, no Mar do Norte -, nem família nuclear para odiar. Costumava brincar com isso, acrescentando que não sentia nem mesmo a rejeição do meio - uma "grande frustração edipiana", em suma. Criado pela mãe e as tias e cercado pelas avós, Barthes cresceu num mundo exclusivamente feminino. Em Roland Barthes por Roland Barthes (Estação Liberdade), ele conta, por exemplo, que sua mãe sempre acorria para o salvar dos garotos que o encurralavam nas construções do bairro de Marrac. O sentimento de exclusão acabou empurrando Barthes para outro beco, o submundo dos bares gays parisienses e bordéis masculinos tunisianos, num agressivo contraste com seu incontrolável desejo de ordem. Em síntese: Barthes era como André Gide, um hedonista assumido, embora cheio de culpa (seu primeiro texto, aliás, teve por objeto o Diário de Gide).

O diário, para Barthes, era um recurso anacrônico tanto para contemplar seus fragmentos como os "dejetos" de seu narcisismo, mas sejam quais forem as antinomias desse genial teórico, é preciso dizer que seu compromisso com a literatura não lhe permitia a hipérbole, a frivolidade ou a submissão a estereótipos, como disse certa vez seu amigo Philippe Sollers. A histeria é fundamentalmente antibarthesiana. Não será possível identificar em Diário de Luto traços de uma escrita monumental. É o silêncio de câmara, a inconclusiva natureza do luto que dominam esses fragmentos e os tornam, paradoxalmente, tão gigantescos como a morte de Lear em Shakespeare ou a de Joachim em A Montanha Mágica, de Thomas Mann.

Seria possível dizer que Diário de Luto é mesmo o inverso de um Bildungsroman, um romance de formação como A Montanha Mágica. Tem pouco a ver com Hans Castorp se espelhando no primo Joachim para aprender a sofrer e a viver no mundo dos mortais. Antes, é um fragmentário exercício de deformação. Barthes tem "medo de fazer literatura" ao falar da morte da mãe. A escrita, para o semiólogo, é irrisória diante do luto. Ele sabe que chegaria o dia em que a depressão mostraria sua face e nem mesmo poderia se agarrar à escrita como tábua de salvação. Se há outra possível semelhança com a montanha de Thomas Mann, essa é a paralisação completa dos relógios, o congelamento do tempo na morgue caseira de Barthes. Ele imaginava que a morte da mãe poderia fazer dele uma pessoa forte, acedendo à "indiferença do mundano" - ou seja, ao discurso da "futuromania", da reconstrução da vida que vem com a mudança dos móveis e a doação das roupas do defunto. Mas não. Desde o momento em que a mãe deixa de existir, Barthes não tem mais a impressão de liberdade que tinha em suas viagens (ou escapadelas noturnas). E ele se dá conta disso na sensual Marrakesh, um ano após a morte de Henriette.

Épico. Em busca de um sentido imanente para a vida, Barthes cruza o caminho do Svevo de A Consciência de Zeno. Com uma diferença: não faz esse balanço de vida no divã de um psicanalista, mas num corpo a corpo com o próprio texto. Barthes, definitivamente, não é Zeno Cosini que, ironia, acredita ter saldo positivo nesse confronto com a morte que se aproxima, concluindo que ele, doente, viveu melhor que as pessoas saudáveis. Joyce soube aproveitar bem as lições de Svevo no conto Os Mortos, que, a exemplo do diário de Barthes, trata de um mundo esvaziado pela presença da morte. A identidade da mulher que evoca a lembrança de um antigo amor no conto dissolve-se num mundo cinza, no imenso território do indiferenciado que é o cemitério da memória, onde vivos e mortos, solitários, enterram-se mutuamente.

Svevo e Joyce, obviamente, são referências, mas não modelos. A escrita de Barthes é pessoal. Ele mal suportava a imagem de si mesmo e tinha como meta abolir relações que se adjetivam, que estão ao lado da imagem, como dizia, ou seja, da morte. Não escreveria jamais algo como A Cerimônia do Adeus, em que Simone de Beauvoir faz do relato dos dez últimos anos de vida de seu companheiro Jean-Paul Sartre um exercício entre o horror e a admiração. Não é o caso, claro, do livro dedicado por André Görz à mulher. Eles viveram juntos por 58 anos. A perspectiva de perder a mulher o deixou completamente perdido, pois era ela, Dorine, quem o segurava nos momentos mais difíceis. Condenada por uma doença incurável, que a impedia até mesmo de ficar deitada, Görz preferiu enfrentar também a morte a conviver com o fantasma de sua ausência. Barthes, em seu diário, viu como essa desolação se instalou definitivamente. Morreu um pouco com a mãe.

DIÁRIO DE LUTO

Autor: Roland Barthes

Tradutora: Leyla Perrone -Moisés

Editora: WMF/Martins Fontes

(252págs., R$ 42)

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