Stringer/Reuters
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A montanha dos mil holofotes

Assim como se organizaram para resistir à penúria na mina, os 33 resgatados se coordenam para lucrar com o assédio na superfície

PATRÍCIA CAMPOS MELLO, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2010 | 16h01

 Quando o primeiro dos 33 mineiros chilenos foi resgatado de seu cativeiro no centro da terra, seus pais não conseguiam parar de chorar. Alfonso e María se abraçaram ao ver pela televisão o filho Florencio Ávalos aparecer dentro da cápsula Fênix. Chegava ao fim uma espera de 68 dias. Espremidos em sua tenda no acampamento Esperança, ao lado da mina, não podiam acreditar que Florêncio tinha saído de lá com vida, depois de passar tanto tempo a 40 graus centígrados, a quase 700 metros de profundidade.

 

Mas os Ávalos mal aproveitaram o momento. Mais de 300 jornalistas se acotovelavam na tenda da família, tentando filmá-los. Alguns repórteres tropeçaram, muitos se empurraram, tudo para conseguir chegar perto e berrar alguma pergunta. A tenda começou a balançar. María se irritou. “Saiam já daqui”, dando com a bandeira do Chile na cabeça dos mais afoitos. Alfonso correu para a cozinha do acampamento, com cinegrafistas no calcanhar. O estouro da boiada midiática destruiu duas barracas e algumas cadeiras no caminho. “Jornalistas, mais respeito! Não empurrem!”, bradou alguém.

 

Começava aí o primeiro ano do resto das vidas dos 33 resgatados – e de suas famílias. De anônimos trabalhadores braçais em uma mina insalubre no deserto do Atacama, eles se transformaram em celebridades assediadas por jornalistas 24 horas por dia.

 

Mas os 33 decidiram que não seriam passivamente atropelados pela histeria da mídia. Firmaram um pacto: todo esse assédio não sairia de graça. Vocês querem saber se houve sexo na mina, se alguém brigou com alguém, se Luís Urzúa era mesmo o líder? Paguem. Da mesma maneira que se organizaram para resistir aos 17 primeiros dias com uma colher de atum a cada 12 horas, também se coordenaram para sobreviver na superfície.

 

Afinal, a vida sob os holofotes também exige adicional de insalubridade. A fama deixou sequelas em pelo menos um dos 33. Edison Peña, o maratonista da mina que corria 10 km por dia nas galerias, teve de ser internado na sexta-feira com uma crise de angústia.

 

“Já são 11 horas da manhã e eu ainda não consegui comer nada, vocês precisam pagar pelo meu tempo, não vou dar entrevista de graça”, disse ao Estado Lillianett Ramirez, mulher de Mario Gómez, o mais velho dos mineiros. “Somos pobres, olhem onde nós moramos; vocês estão faturando com as nossas histórias, por que nós não podemos usar essa oportunidade para dar de comer aos nossos filhos?”, perguntou Veronica Quispe, mulher do boliviano Carlos Mamani. Jessica Chilla, esposa de Darío Segovia, foi mais direta. “Darío está fisicamente esgotado e merece remuneração. Ele não vai dar entrevistas de graça nem agora, nem depois.”

 

O cachê varia, alguns resgatados cobram US$ 50, outros conseguem até US$ 30 mil por entrevista exclusiva. TVs japonesas, brasileiras, revistas alemãs se dispuseram a pagar. Muitos jornalistas, porém, se recusaram a desembolsar pelas entrevistas. Várias entidades classificaram a prática de antiética.

 

Os resgatados deram de ombros.

 

Como mineiros, os chilenos ganhavam de US$ 500 a US$ 1000 por mês. Só em presentes e prêmios receberam, até agora, US$ 38 mil cada um, segundo o jornal El Mercurio. Também individualmente ganharam US$ 10 mil do milionário da mineração Leonardo Farkas, óculos Oakley (cerca de US$ 350), iPod Touch de Steve Jobs, dono da Apple, e convites para viagens. Um site da internet de conselhos para relações extra-maritais quer ter Yonni Barrios, disputado pela mulher e pela amante, como garoto-propaganda.

 

Os protagonistas da mina de San José sabem que janela de oportunidade para faturar é curta. Daqui a um mês, a pergunta pode ser: “Que mineiros?” Cada um deles corre o risco de ser apenas um egresso da mina San José – guardadas as devidas proporções, tal qual um ex-BBB, que não consegue nem se eleger deputado. “Precisamos aproveitar tudo isso, e rápido”, disse Omar Reygadas.

 

Os 15 minutos de fama dos protagonistas de San José vão passar ainda mais rápido, porque esse foi um resgate em tempo real. Começou a ser transmitido quando uma microcâmera chegou pelo duto até a mina, e os mineiros passaram a se filmar. Depois, o resgate em si atingiu cerca de 1 bilhão de telespectadores no mundo, já que, por ordem do presidente Piñera, instalou-se uma câmera na Fênix. Um filme sobre os 33 já está sendo rodado. Há vários “livros instantâneos” em negociação nas editoras. Já existe uma fadiga do público pelo excesso de exposição.

 

É só comparar com o Milagre dos Andes, acidente de 1972 com um avião do time de rúgbi uruguaio. Dos 45 passageiros, restaram 16, que tiveram de se alimentar de carne humana para sobreviver. O Milagre dos Andes não foi acompanhado por Twitter, internet, nem mesmo por TV. Vivos, o filme sobre os sobreviventes, só saiu 21 anos depois. O primeiro livro demorou 2 anos.

 

 

PATRÍCIA CAMPOS MELLO É JORNALISTA, FOI CORRESPONDENTE DO ESTADO EM WASHINGTON E ENVIADA ESPECIAL A COPIAPÓ, NO CHILE

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