A moeda de troca para entrar no reino dos céus

As imagens medievais do dinheiro são sempre pejorativas. Tudo para impressionar a matula, resistente aos ensinamentos religiosos. Le Goff, em A Idade Média e o Dinheiro, lembra que o principal símbolo iconográfico do dinheiro no período é uma bolsa no pescoço de um rico, que a leva consigo para o inferno. Dante evoca a mesma imagem em A Divina Comédia. No sétimo círculo infernal ele pode não reconhecer nenhum dos condenados, mas percebe que eles trazem, pendurada no pescoço, uma bolsa. Dante, cautelosamente, se afasta deles, prosseguindo em sua caminhada.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2014 | 02h09

Outro que se ocupou de prometer aos ricos o inferno foi Isidoro de Sevilha (cerca de 570-636), autor do primeiro best-seller latino, conforme classificação livre do historiador Bernard Ribemont (em Homens e Mulheres da Idade Média). Figura maior da Espanha visigoda, Isidoro, autor de Etimologias (mais de dez edições entre 1470 e 1530) e canonizado em 1598, foi recentemente escolhido como santo patrono dos especialistas em informática por seu conhecimento enciclopédico.

Isidoro considerava o amor ao dinheiro à frente dos pecados capitais, mas não condenava os ricos ou a riqueza. Um homem, observa Le Goff, pode ser ao mesmo tempo pobre e rico - e não há aí nenhuma alusão metafórica. Pobre, porque dependente de um rei, que podia doar terras a um homem - por combater os muçulmanos, por exemplo -, mas também tirar dele a última moeda. Poder e dinheiro não andavam juntos na era medieval, ao contrário do que acontece na modernidade.

O dinheiro é produto dessa modernidade, lembra o historiador. Na época medieval, ele estava menos presente do que no Império Romano. Entre os séculos 4.º e 12, a moeda perdeu importância e só lentamente voltou a ser revalorizada. O desenvolvimento urbano e o fortalecimento das ordens mendicantes deram um novo impulso ao dinheiro nessa sociedade dominada pela religião.

Assim como a fada diabólica Melusina, que assombrou a imaginação de todas as classes sociais, o dinheiro assustava o homem medieval. Era preciso construir catedrais góticas e a Igreja soube muito bem arrancar matéria-prima e mão de obra gratuita de seus fiéis. As catedrais custaram caro e, segundo Le Goff, junto às Cruzadas e à fragmentação monetária, sua construção foi uma das razões de a economia europeia não ter decolado na Idade Média, apesar do desenvolvimento do comércio exterior ao longo do século 13.

Os Estados nascentes desse século, que permitiam a príncipes e reis cunharem moedas e arrecadar impostos, ainda não concorriam com o poder da Santa Sé, que ameaçava os usurários com as chamas do inferno - e o único meio de escapar dele era restituir aquilo que ganhavam ao cobrar juros de outros infelizes cristãos. Le Goff admite que tem poucos documentos em mãos informando sobre a realidade dessas restituições. Outros historiadores acham que a religião não tinha lá tanta influência sobre o homem medieval.

O francês discorda. Lembra como religiosos (o monge francês Geoffrey de Vendôme, entre eles) compararam a hóstia sagrada a uma moeda de melhor cunhagem. Numa era que viu surgir os seguros e as letras de câmbio, não podia existir melhor lugar para um usurário do que a crença na existência do Purgatório, que favoreceu as doações em dinheiro à Igreja por meio das caixas de esmolas e das bacias das almas. A hóstia consagrada virou, de fato, uma moeda necessária à salvação, o que prova que o dinheiro não se emancipou dos valores da religião, conclui Le Goff.

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