A moda no Brasil é tema de livro

Foi por notar a carência de informações sobre o vestuário brasileiro, que as editoras do site ModaBrasil (www.modabrasil.com.br), a mestre em Comunicação e Semiótica Kathia Castilho e a jornalista Carol Garcia, ambas professoras da Universidade Anhembi Morumbi, decidiram registrar em livro um panorama da diversa moda nacional, observando a relação do vestuário com a história, a cultura, as tradições, o folclore e a vida socioeconômica de cada povo e região. Moda Brasil: Fragmentos de um Vestir Tropical, que acaba de sair pela Editora Anhembi Morumbi (157 páginas, R$ 25,00), traz uma coletânea de textos assinados por jornalistas especializados em moda de dez Estados brasileiros e do Distrito Federal.Nesta primeira obra que inaugura a série Leituras da Moda, as autoras afirmam logo na introdução que o resgate das origens da moda brasileira é tão frágil que constantemente se questiona a sua existência. "Por décadas nos indagamos sobre seu percurso e significado, além, principalmente, de discorrer sobre sua real existência, como se mesmo nas cópias de grandes correntes internacionais não existissem marcas culturais que revelam adequações (ou até a inexistência delas), relações com o espaço, com o clima e com uma estética que surge da miscigenação permeando singularidades e gerando a particularização da cultura brasileira", escrevem.No momento em que a moda made in Brazil desperta a atenção da imprensa internacional, o livro faz um resgate na memória popular, esclarece e expõe diversos aspectos que comprovam a multiplicidade estética e cultural do povo brasileiro, seja por influência das miscigenações ou outros fatores que marcam o perfil desse rico vestuário. "Trata-se de um caminho que se faz em retalhos, patchworks, fuxicos e rendas em permanente construção de identidade. Afinal, o que vestimos faz ver aquilo que somos e as relações que processamos", analisam as autoras em Moda Brasil.Time de especialistas - Para fazer a pesquisa histórica e escrever o texto a partir da observação de cada Estado, as organizadoras Kathia e Carol contaram com a colaboração dos jornalistas Ana Nadaff (Ceará), Deborah Bresser (São Paulo), Fawsia Borralho (Maranhão), Iesa Rodrigues (Rio), Monique van Dresen (Santa Catarina), Nereide Michel (Paraná), Paula Santana (Distrito Federal), Roberta Pimenta (Rio Grande do Norte), Roberto Pires (Bahia), Silvana Holzmeister (Espírito Santo) e Xico Gonçalves (Rio Grande do Sul).No capítulo de abertura, que começa na página 17 após o prefácio da consultora e apreciadora de moda Wandy Cavalheiro (Diretora de Comunicação e Marketing da Universidade Anhembi Morumbi) e da introdução das organizadoras, a jornalista Ana Naddaf recheia as páginas de Moda Cearense: Uma Colcha de Retalhos com saborosas pinceladas de um longa história que passa pelas mãos de bordadeiras e rendeiras, depois por confeccionistas até chegar aos estilistas. Segundo Ana, é quase impossível não cantarolar os antigos versos "oiê mulé rendeira, oiê mulé rendá..." ao presenciar uma mulher debruçada sobre suas almofadas de palha de bananeira, em frente às casas de beira-mar, a entoar os bilros.Além de inúmeros fatos que contribuíram para a valorização da moda brasileira no exterior, o Ceará também foi responsável pela introdução de estilistas (hoje famosos) no circuito fashion, como o paraense Antonio Marques dos Santos Neto, que em Fortaleza virou Lino Villaventura. A explicação? Está em Moda Brasil.Seja em Um Affaire de Paixão, Topete de Pinhão, Dos Balangandãs ao Axé Look, O Jeans Cresceu e Apareceu como nos demais capítulos que formam a obra, todos (apesar da restrição de espaço determinado pelas organizadoras) são ricos em informações, sem deixar de lado uma boa pitada de humor. Assinado pela jornalista do Jornal da Tarde Deborah Bresser, o capítulo que trata da moda paulistana segue um viés original: o bairro do Bom Retiro. "Nasci e morei muito tempo no bairro, por isso quis acabar com o velho estigma e preconceito de que na região são confeccionadas apenas peças simples e cópias. Além de ser um grande pólo comercial, o Bom Retiro tem sua história intrinsecamente ligada à da moda paulistana", afirma. Para o estilista Tufi Duek, dono da Fórum e que começou sua carreira no bairro, "o Bom Retiro funciona como um pólo produtor de moda já consagrada em outros lugares, dando alcance a uma outra fatia do mercado em que não é importante se foi ou não criada ali e sim se está na moda."Outro capítulo curioso é o que retrata a moda maranhense escrito pela jornalista Fawsia Borralho. Entre os personagens que permeiam O Sertão Virou Marestá o estilista Chico Coimbra que há 15 anos se inspira nas fibras do buriti, primeiro adaptando para o figurino teatral, palco para suas criações. Recentemente, ele adotou outra matéria-prima regional: o fio de rede. "A obra conjuga informações que não constam em trabalhos semelhantes, pois as pequenas regiões que não têm valor para a indústria são desprezadas", comenta a stylist e professora de graduação da Universidade Anhembi Morumbi. "Faltam estudos mais direcionados e consistentes. Este livro é apenas o começo."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.