A moda dos musicais

A moda dos musicais

Uma análise do aspecto visual de quatro superproduções em cartaz

Fausto Viana e Rosane Muniz, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2010 | 00h00

ESPECIAIS PARA O ESTADO

A onda de musicais realmente atingiu São Paulo e já transformou este gênero teatral em uma indústria à parte na cidade. Para quem é aficionado pelo estilo, o momento é ímpar. Para quem não é, a oportunidade de se educar na arte de assistir a musicais é excelente. O que não vale neste percurso é o preconceito: o musical não é um gênero maior ou menor de teatro. É apenas um gênero, no qual vale a pena se aventurar. Nós fomos conferir quatro grandes produções e o resultado foi surpreendente.

O Rei e Eu. Para quem nunca foi a um musical e deseja se iniciar logo com uma montagem de grande porte, vá conferir O Rei e Eu. A superprodução, coordenada por Jorge Takla, integra todos os elementos cênicos em perfeita harmonia para contar a história ficcional, porém inspirada nos anos em que Anna Leonowens passou na corte real do Sião, na Ásia, como professora das dezenas de filhos do rei Mongkut. Apesar de o tema abolicionista ser o conflito principal, as diferenças de costumes, políticas e modos entre cultura oriental e ocidental trazem à tona a relação de amor que acaba por se estabelecer. Já percebeu o astral? Uma história romântica, com muitas crianças em cena, músicas que foram imortalizadas na Broadway e no cinema por Yul Brynner no papel de rei (interpretado muito bem aqui por Tuca Andrada) e por Gertrude Lawrence e Deborah Kerr como Anna (vivida na montagem brasileira pela experiente atriz Claudia Netto).

No intervalo do espetáculo, se deu um encontro com o figurinista Fábio Namatame e aproveitamos para perguntar sobre os ricos tecidos - com muitos tons brilhantes, dourados e bordados. Descobrimos que vieram da Tailândia, China e Índia e foram trabalhados por ele e sua equipe ao longo de seis meses. "Esta foi a maior produção em que já trabalhei", o que não é pouco, diante do seu currículo repleto de óperas, espetáculos de teatro e cinema. Além da enormidade de trajes que passam em cena, alguns atores ainda possuem figurino duplo (para quando precisa lavar), há os papéis que têm dois atores se revezando (cada um com sua versão do traje) e o elenco de crianças, que é duplicado (e as roupas também) e se reveza nas sessões.

O metateatro com a encenação de A Cabana do Pai Thomás revela um "desfile" de figurinos e adereços deslumbrantes em uma sequência clássica e divertida, mesmo que trágica em conteúdo. Aliás, a única coreografia igual à versão original. Todas as outras coreografias foram criadas de acordo com o gestual tailandês, pesquisado in loco por Tânia Nardini. O resultado é de encher os olhos, especialmente as cenas com os vestidos românticos de Anna: majestosos e simples justamente por estarem em contraste com a suntuosidade dos trajes orientais. Até as cópias, propositalmente malfeitas para o jantar em homenagem aos ingleses, se destacam pela engraçada descoberta da falta da "roupa de baixo". Prepare seu coração para o embelezamento das cenas, que recebem ajuda dos cenários simples e espetaculares de Duda Arruk e dos painéis de Marcos Sachs, que têm sua pintura e bordados salientados pela luz de Ney Bonfante e envolvem totalmente o espectador.

Hairspray. Mas se a sua opção é diversão aliada a um visual de tirar o fôlego, Hairspray é obrigatório. Com atores globais, que conferem certo fetichismo que os musicais adoram, o elenco todo é muito entrosado. O destaque vai para a atuação da gordinha Simone Gutierrez no papel de Tracy Turnblad, que ambiciona ser estrela e vai parar em um programa de televisão. A personagem tem um visual compatível com sua autoestima: cabelo altíssimo e roupas completamente fora do padrão exigido pela "moda", mas que ela adora. Aliás, Turnblad é uma precursora tanto no sentido da autoaceitação corporal quanto no combate ao preconceito, afinal, usa do microfone para fazer com que os negros sejam reconhecidos pelo seu talento e em pé de igualdade com os brancos. O figurinista Marcelo Pies recria com talento os trajes dos anos 1960, enchendo o palco com muitas cores e estampas nas ricas possibilidades que o espetáculo proporciona. Está lá no site da versão brasileira: "São mais de 40 trocas de cenários, 35 toneladas de equipamentos, 350 mudanças de luzes (...), compondo uma atmosfera encantadora da década de 60, com mais de 350 figurinos e 100 perucas."

Aliás, as perucas estilizadas de Wellington Fontenelli são impagáveis, tal como a de Danielle Winits, que interpreta a filha mimada da produtora do programa de TV que embala a tarde dos jovens de Baltimore. Encantadoras são as composições de Pies para os trajes de mães e filhas, com tecidos iguais em propostas diferentes. Já o galã Edson Celulari se arrisca - com muita propriedade - como a gorda Edna Turnblad, mãe da anti-heroína. Os enchimentos de espuma e vestidos fazem com que Celulari não deixe nada a dever a John Travolta, que fez a versão cinematográfica da obra. Vá e leve as crianças.

Cats. Com todas as formalidades contratuais, Cats traz o mesmo design cênico visto na Broadway, criado pelo inglês John Napier, responsável pelos cenários e figurinos. Esta obrigação de se reproduzir o trabalho em terras estrangeiras no mesmo formato em que ele estreou não é novidade, nem nos musicais, nem no teatro dramático. Bertolt Brecht, por exemplo, nos anos 1940, já criava seus Cadernos de Direção com fotos, textos, figurinos, etc., e exigia que montassem as suas peças exatamente daquele jeito.

O fato é que, independentemente de como e onde foi criado, vale a pena ser visto. Os gatos usam malhas justas que valorizam os corpos, feitas com lycra especial para auxiliar a mobilidade em cena e pintadas à mão com diferentes estampas. "Se você olhar bem cuidadosamente, verá que cada traje conta a história inteira sobre a personalidade de cada gato", disse o supervisor do guarda-roupa da montagem americana, John Laurino. Por cima do traje, munhequeiras e tornozeleiras felpudas, tricotadas à mão, provocam a similaridade com as patas dos felinos.

Como o elenco fica praticamente o espetáculo inteiro em cena, os trajes sofrem muito desgaste e exigem manutenção diária antes de cada sessão. As perucas são feitas de pele de boi tingida, inclusive com as orelhas. Cada maquiagem possui direito autoral e foi criada por Napier para que fosse executada pelos próprios atores antes de entrar em cena. O cenário, proporcionalmente ampliado e composto por um playground repleto de objetos descartados pelos humanos, também é muito próximo ao da Broadway, e perceber a mágica de ver um pneu gigantesco "voando" sobre uma nuvem é parte dos efeitos especiais que causam curiosidade ao espectador. Quando os atores passarem por você - eles se movimentam pela plateia - aproveite! Assim que o musical sair de cartaz, bem que poderiam organizar uma exposição para admirarmos de perto os detalhes dos trajes e a riqueza do trabalho.

O Despertar da Primavera. É o mais jovem, em vários sentidos. Foi escrito em 2006 e estreou em teatro off-Broadway, passando depois para a Broadway. Curiosamente, dez anos depois da estreia no mesmo estilo de Rent, o box office smash musical que ficou em cartaz até 2008 - adaptação de La Bohème, de Puccini, para o Village de Nova York nos anos 90, com muito rock, drogas, aids, sexo gay... O Despertar é muito jovem também em termos de elenco. Todos são muito teens, a maior parte deles estreando em teatro profissional, com exceção dos dois atores curingas que se revezam nos papéis do mundo "adulto". E o mais lindo no espetáculo é... justamente o elenco, fazendo jus ao mote de que a juventude é o melhor adorno, assim como o quis o diretor Charles Möeller.

Mas O Despertar não é jovem se pensarmos que também é baseado em um clássico da dramaturgia, do século 19: o texto do alemão Frank Wedekind, publicado em 1891 e que sofreu várias censuras em seu histórico de montagens. Curiosamente, a primeira estreia (como texto dramático) se deu em 1906, com a direção de Max Reinhardt, encenador influente para a história da análise da indumentária em cena e que publicou, no ano anterior, seu Manifesto Teórico, no qual uma de suas "reivindicações" era de que "se deve encenar os clássicos como se eles fossem novos; como se tivessem sido escritos hoje, como se os trabalhos deles estivessem vivendo hoje". Esta é a intenção do diretor brasileiro, que teve total liberdade cênica e pensa que "o musical aqui já é adulto, já tem pernas próprias e pode caminhar para além da reprodução confortável de fórmulas e receitas".

O cenário de Rogério Falcão dá um tom moderno ao espetáculo, porém o figurino de Marcelo Pies é demasiado minimalista para um teatro de grandes proporções, o que deve dificultar a compreensão da simbologia empregada por ele. Vá, mas não leve as crianças e sim os adolescentes, que vão entender perfeitamente os hormônios "soltos" pelo palco. Fase difícil...

PRESTE ATENÇÃO

O Rei e Eu. Repare nos ricos tecidos - com muitos tons brilhantes, dourados e bordados. Vieram da Tailândia, China e Índia.

Hairspray. Em cena, nada menos do que 100 perucas estilizadas, criadas por Wellington Fontenelli, como a de Danielle Winits, impagável.

Cats. Os gatos usam malhas justas que valorizam os corpos, feitas com uma lycra especial para auxiliar a mobilidade em cena e pintadas à mão com diferentes estampas.

Despertar da Primavera. O figurino de Marcelo Pies é demasiado minimalista para um teatro de grandes proporções. Isso dificulta a compreensão da simbologia.

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