A moda como um símbolo da riqueza do ser humano

Holandesa, que só trabalha em dupla, define as roupas apenas como um ponto de partida

Lilian Pacce, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2011 | 00h00

Ela é filha de uma jornalista de moda e cresceu entre revistas e imagens fortes como as de Helmut Newton e Guy Bourdin, que influenciaram profundamente seu trabalho. Ele é filho de um alfaiate, cresceu entre tecidos e entretelas e até ensaiou ser estilista. Há 26 anos eles formam uma dupla, na vida e na profissão e, desde os anos 1990, conquistaram o mundo da moda com suas imagens.

Essa é a primeira vez que a dupla de fotógrafos holandeses Inez Van Lamsweerde e Vinoodh Matadin vem ao Brasil, curiosos porque conhecem - e adoram - as modelos daqui. O motivo é o convite do São Paulo Fashion Week, que promove a exposição Pretty Much Everything, com cerca de 300 trabalhos. Entre autorretratos, fotos de Clint Eastwood a Lady Gaga, de moda e fotoesculturas, a exposição é imperdível. E o melhor: fica em cartaz no prédio da Bienal até 3 de julho, com entrada franca. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Inez Van Lamsweerde ao Estado.

Como vocês se conheceram?

Na faculdade, em Amsterdã. Ele terminava a graduação em moda quando entrei, em 1985. Comecei a estudar fotografia e ele me pediu para fazer as fotos das roupas que ele criava, para divulgação da marca dele. Em 1993, ele resolveu encerrar a marca e trabalhar só comigo. Assinávamos com o meu nome e ele era creditado como stylist, mas já fazíamos tudo juntos. Não colocávamos o crédito dos dois porque não era comum na época. Até que surgiu em 1996 um trabalho para a Vogue América que já tinha um stylist. Como não podíamos creditá-lo assim, passamos a assinar em dupla. Por volta de 2000, testávamos umas câmeras para um editorial da Harper"s Bazaar e ele disse "vou usar essa enquanto você tira as fotos". E assim, por acidente, começamos a criar essa dinâmica de fotografar juntos.

E trabalham assim até hoje?

Exato, tiramos fotos juntos, cada um com uma câmera. Eu faço o contato com a modelo ou com a pessoa a ser retratada - elas olham para minha câmera. Ele fica ao redor, clicando essas imagens que ganham impactos emocionais diferentes porque têm um lado mais introvertido. São momentos roubados. Também tem um lado meio voyeur. São dois pontos de vista diferentes, mas nunca nos preocupamos em "não ter conseguido a foto" porque dividimos essa responsabilidade (risos).

Quais são as principais características do seu trabalho?

Fotografamos seres humanos, eis o cerne do trabalho. Mesmo que seja imagem de moda, é sempre uma pessoa que está ali. As roupas, para nós, servem para enfatizar as características daquela pessoa. É como num filme: a roupa dá a ideia do que é o personagem. Tanto nos retratos quanto nas nossas fotos de moda, há sempre uma dualidade, uma ambiguidade. Há uma tensão - o belo e o grotesco, por exemplo, dois polos com a imagem no meio. Nunca está tudo claro, sempre existe alguma questão na imagem. Para quem vê, dá uma sensação de mistério, a pessoa olha para foto por mais tempo, e não simplesmente vai passando por mais uma página da revista. Isso fica claro na exposição.

O que temos na exposição?

É uma retrospectiva de 25 anos. Fizemos a curadoria como uma longa sentença sem começo nem fim, um looping. Não existe ordem cronológica nem grupos divididos em temas, como "trabalhos na moda" ou "retratos de celebridades". Está tudo misturado. A ideia é mostrar como nosso trabalho existe na nossa cabeça. E são sempre duas fotos, uma do lado da outra, "conversando", conectadas ou uma com uma relação de conflito com a outra. Enfim, se associam.

É a dualidade que você citou.

Exato, são duas pessoas, dois cérebros, duas fotos, dois lados. Há também trabalhos colaborativos na exposição. Um deles é com meu tio, Eugene Van Lamsweerde. Trabalhamos juntos há 5 anos no que eu chamo de escultografia, uma mistura de escultura e fotografia, e isso é ótimo porque é libertador, mistura áreas.

Como funciona?

Criamos uma foto já com a ideia de uma escultura. Por exemplo, tem uma foto que queríamos que fosse a de uma garota com o cérebro explodindo. Fizemos a foto dela gritando e Eugene fez a escultura de cera da explosão. Gosto dessa camada a mais para mostrar uma condição interna - a gente sempre procura um lado psicológico, algo que está dentro da pessoa para ser mostrado na imagem, e é muito bom adicionar uma terceira dimensão para mostrar esse lado interno.

Com quem adoram trabalhar?

Temos um interesse especial em Stefano Pilati, da Yves Saint Laurent. Somos nós e ele conversando, sem diretor de arte, sobre quem é essa mulher a cada nova coleção. Ela é uma executiva, como é a vida dela? É o único estilista com quem a gente tem uma troca. Stefano fica animado com o shooting. A maioria dos estilistas fica estressada, pensando em termos comerciais e mil outras coisas, mas para Stefano é um momento de relaxar: o desfile já aconteceu, as críticas já saíram, agora é hora de brincar com as roupas, de aprofundar uma ideia. É um envolvimento bem diferente. Essa última campanha fizemos com a Raquel (Zimmermann).

Vocês trabalham muito com ela.

(Sorrindo) Ela é a minha favorita, virou uma amiga. É muito versátil, pode se transformar em qualquer coisa que você peça: homens, mulheres, animais, espíritos... até objetos. Raquel é muito esperta, ela entende a imagem que você quer. Ela se desprende, dá tudo de si sem se preocupar se está feia, se vai parecer magra. Não deixa o ego falar, e isso faz com que a relação seja de muita confiança e sentimento. E é muito intuitiva, especial.

Vocês vão fotografar aqui?

Não dessa vez. Preferimos focar na exposição, conhecer a cidade, ir para o Rio, sem ficar fazendo produção, pensando em foto. Mas queremos voltar só pra trabalhar, talvez em novembro. COLABOROU JORGE WAKABARA

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