Guto Muniz/Divulgação
Guto Muniz/Divulgação

A mistura do cômico com o grotesco

Cnsiderado 'gênio espontâneo', russo manteve seu trabalho alheio às influências

Aurora F. Bernardini, especial para o Estado,

06 de dezembro de 2009 | 05h00

Com razão, Henry Troyat em sua alentada biografia de Nikolai Gógol (1809-1852) chama o prosador-dramaturgo russo de "gênio espontâneo". Fenômeno inato de humor onde o cômico, o grotesco e o angustiante se misturam, Gógol manteve-se alheio a qualquer tipo de influência, a não ser talvez à do poeta Aleksandr Púchkin, dez anos mais velho, a quem admirava e a quem havia pedido, por meio de carta, uma anedota qualquer para ser transformada em comédia.

 

De volta a São Petersburgo, vindo de sua propriedade no campo, em outubro de 1835, o amigo dera-lhe pessoalmente o que ele desejava. Algumas linhas que Púchkin anotara em seu caderninho, retiradas do relato de um fato real: "Kríspin chega a uma capital de província para visitar a feira e tomam-no por.... O governador é um imbecil; a mulher do governador mostra-se provocadoramente amável para com ele; Kríspin torna-se noivo da filha". Era a ideia que Gógol estava esperando para arquitetar a obra-prima que veio a ser O Inspetor Geral.

 

Dois meses depois, a redação da peça estava pronta e, em janeiro de 1836, ele pode lê-la em voz alta, conforme era seu hábito, a um grupo de amigos que, desde a primeira cena, não conseguiu reprimir o riso e a admiração. Quando, graças aos esforços daqueles mesmos amigos, o czar Nicolau I, não desconfiando do perigo que aquela violenta sátira à corrupção poderia representar para o seu governo, permitiu sua encenação, Gógol leu-a para os atores, que só após variadas provações representaram a peça conforme seu desejo, até que o genial Mikhail Chtchépkin, no papel do prefeito, a levou, finalmente, ao sucesso.

 

Fraque verde

 

Aqui está o testemunho de um dos atores, Karatýguin, publicado em O Mensageiro Histórico, no ano de 1883, quanto à atuação de Gógol: "De estatura baixa, com um topete atrevido no cocuruto, os óculos de armação de ouro sobre o nariz de pássaro, ele franzia o cenho enquanto apertava os lábios como se os mordesse por dentro (...). O seu fraque verde de abas compridas e pequenos botões de nácar, as suas calças castanhas, a maneira com que ele retirava e fazia girar entre as mãos um chapéu alto e repassava depois nervosamente os dedos na poupa do cabelo - tudo isso conferia à sua fisionomia algo de caricatural. (...) Ele mudava de entoação e quase de rosto ao passar de um papel para outro". Além de escritor gótico de lendas ucranianas (Mirgorod), de admirável contista (A Avenida Niévski, O Retrato, Diário de Um Louco, O Nariz, O Capote), de aclamado romancista (Almas Mortas) e dramaturgo, Gógol era também um grande ator.

 

Tanto em O Inspetor Geral como em outras duas peças da presente coletânea - que constituem, junto com duas curtas interlocuções, À Saída do Teatro Depois da Representação de Uma Nova Comédia e Desenlace de O Inspetor Geral, o todo da produção teatral do autor -, O Casamento e Os Jogadores, podemos notar os procedimentos artísticos que mais impressionaram Vladimir Nabókov em seu admirável Nicolai Gógol - Uma Biografia (Ars Poetica, 1994). São eles: a ambiguidade dos provérbios e dos ditos russos; o discurso gerando figuras vivas; a pergunta abrupta e a resposta circunstancial; e, sobretudo, as contínuas digressões. Nelas, personagens secundários "surgem repentinamente a cada passo da peça, pavoneiam por um segundo sua existência real", e impacientes, desaparecem, também de modo repentino - ou, ainda, aludem a outro alguém, real ou fictício, sempre próximo do absurdo. Veja-se a fala de Ana Andréievna, a mulher do prefeito: "Era só o que faltava! E por acaso não tenho olhos escuros? Os mais escuros possíveis. (...) Como é que não são escuros se quando tiro a sorte nas cartas sempre me vejo na Dama de Paus?"

 

Mas o principal encanto das alusões exploradas por Gógol está em que nada, absolutamente nada, advém delas, como notou Nabókov. "Um deles" - diz o prefeito que está chamando a atenção do supervisor escolar para que prepare sua equipe para a visita do Inspetor - , "aquele de cara gorda, por exemplo... não consigo lembrar seu nome... bem , toda vez que ele começa a dar aula, ele simplesmente tem de fazer uma careta. Claro, se ele fizer caretas só diante dos alunos, não tem muita importância, pode até ser necessário no seu departamento, isso eu não tenho condições de julgar; mas imagine o que poderia acontecer se ele fizesse isso na frente de um visitante, seria realmente terrível".

 

Tal como surgiu, o perigoso professor desaparece, para ceder lugar a outro, o professor de História, ou a Alexandre, o Grande, etc. As digressões multiplicam-se, caracterizando cada um dos protagonistas, grandes ou minúsculos, como seres vivos. "Deixe-os como eles são. Para que o senhor vai modificá-los?", implorou a Gógol o ator Chtchépkin em carta de 1847, quando, impelido pelo lado moralizante de sua personalidade, que o levará a queimar a segunda parte de Almas Mortas, o autor queria, a todo custo, acrescentar um novo "desenlace" ao Inspetor Geral. "Eu os amo, amo-os com suas fraquezas, como afinal todas as pessoas. (...) Não, eu não quero essa modificação: são gente de verdade, estão vivos, pessoas entre as quais eu cresci e mesmo envelheci. (...) Não deixarei, enquanto estiver vivo. Depois de mim, transforme-os até em bodes, se quiser, mas por enquanto..."

 

Se o famoso dito - "A culpa não é do espelho se a cara é torta" - serviu de epígrafe a Gógol, para seu teatro, esse sentido depoimento de Chtchépkin poderia, sem dúvida, servir de epitáfio.

 

Aurora F. Bernardini é professora de pós-graduação em Literatura Russa da USP

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