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A missão

Estamos no mundo como escolta do nosso DNA, entende? Esta é a nossa função. Pense no seu DNA como o presidente da República. A Dilma, pronto. Fazemos parte da sua segurança. Nossa missão é protegê-lo para que ele cumpra a sua, que é reproduzir-se.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2014 | 02h10

- Deixa ver se eu entendi. A missão da presidente Dilma é reproduzir-se?

Esquece a presidente. Pense no seguinte: nós somos o invólucro dos nossos respectivos DNAs. Tudo o mais que somos não tem a menor relevância, tudo o mais é supérfluo. Esse seu sinalzinho, por exemplo. Irrelevante. Nossas vidas, fora do expediente, não têm nenhuma importância. Se o mundo fosse um lugar bem administrado, nasceríamos já na puberdade e morreríamos quando não pudéssemos mais fecundar ou sermos fecundados. Do jeito que está, tem todo aquele aborrecido período de infância, e depois de velhice, quando só ficamos atravancando o planeta e incomodando em casa. Já cumprimos nossa obrigação com o DNA, não temos mais nada a fazer na Terra, mas continuamos por aí, num claro exemplo de mal uso de recursos humanos e de falta de um bom gerente. Gostas do Djavan?

- Tem outra coisa?

Roberto Carlos?

- Pode ser.

*

Um exemplo da falta de racionalidade é o fato de existirem quase tantos homens quanto mulheres no mundo. Como um homem pode fecundar várias mulheres, só seria necessário um homem para cada dez mulheres para manter a mesma taxa de natalidade que existe agora e assegurar a sobrevivência da espécie humana num mundo cada vez mais competitivo. Você não está com calor? Não quer tirar esse...

- Não.

*

A maioria dos homens é dispensável, mesmo os sexualmente ativos. Ao contrário do que se pensa, a monogamia interessa muito mais aos homens do que às mulheres. Mais champanhe?

- Obrigada.

A monogamia garante que homens absolutamente sem serventia, incapazes de seduzir uma única mulher que não seja a sua - enfim, ineficientes como portadores e protetores do DNA -, entulhem o mercado, competindo com agentes experimentados como, modéstia à parte, eu. Chega pra cá um pouquinho.

- Não.

Vem.

- O que você quer?

Só quero convencê-la a não esquecer seu compromisso com a espécie. E cumprir o seu dever. Nós não contamos, não precisamos nem nos ver depois desta noite. Nossos DNAs é que são importantes. A noite é deles! Eles precisam se encontrar para se reproduzir e só nós podemos proporcionar este encontro. É a nossa missão! Não é hora para personalismos.

- Sei não...

E olha: eu trouxe camisinha.

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