A miséria sólida e a ''modernidade líquida''

O Censo-2010 do IBGE nos mostrou o óbvio: mais da metade do País (55%) não tem saneamento básico, não tem acesso nem à rede de esgotos. Também nos mostra que somente por volta de 2070 (talvez) se resolva o problema da miséria endêmica. E nos prova que a trágica doença brasileira que o governo Lula condenou e utilizou como bandeira continua intacta, a não ser na mídia e no papo. As reformas essenciais que qualquer governo moderno conhece nunca foram realizadas.

Arnaldo Jabor, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2011 | 00h00

Uma vez, escrevi sobre um menino pobre que fazia malabarismo na rua, diante de meu carro, e muitos se emocionaram, em cartas e e-mails. Gosto do texto, mas tive uma sensação de culpa por fazer sucesso com a miséria dos outros. De certa forma, eu lucrei. O menininho malabarista (onde estará ele agora?) enobreceu-me. Ou seja, a miséria me deu assunto e lucro. Para nós, os bacanas, a miséria é apenas um incômodo "existencial", uma sujeira na paisagem.

Temos de entender como a miséria está "dentro" de todos nós. Ali, no carro blindado, diante do menino, eu fazia parte da miséria. Onde estava a miséria em mim, naquela noite? Estava no fato de eu ter carro? Talvez estivesse na blindagem, não do carro, mas, na blindagem de nossos corações contra o lado de fora da vida. Não basta sofrermos com o "absurdo" da miséria. Ela é uma construção minuciosa por um sistema complexo. A miséria não é absurda, é uma produção. Transformar a miséria em bandeira política, sem entender o conjunto que nos inclui, é uma atitude miserável. A miséria está nas emendas do orçamento, está na sordidez do sistema eleitoral, na falsa compaixão dos populistas, nas caras cínicas, "lombrosianas" dos ladrões congressistas, está na lei arcaica e sem reformas, está na atitude gelada dos juristas impassíveis, está nos garotinhos na rua e nos garotinhos da política.

Há alguns anos, tolerávamos tristemente a miséria, desde que ela ficasse longe, quieta, sem interferir na santa paz de nosso escândalo. A miséria tinha quase uma... "função social".

Mas, hoje, não adianta mais a eterna cantilena do "ah... coitados dos pobres..." Para entendermos o horror que nos envolve, temos de analisar as classes dominantes, a estrutura patrimonialista do País, a formação torta do Estado, a tradição histórica de nosso egoísmo. Livros e filmes devem ser feitos sobre os responsáveis por nossa fome e pobreza.

Com a indústria de armas, as drogas, a telefonia, a internet, a miséria foi tocada pela evolução do capitalismo. A violência é até uma trágica "modernização" da miséria. Ninguém sabe o que fazer com a neomiséria; por isso, a invenção das UPPs foi tão oportuna e original diante do óbvio: hoje, a miséria é grande demais para ser erradicada - temos de incorporá-la. Não tem mais jeito; a miséria tem de ser integrada à nossa vida.

Temos de conviver com ela, pois também somos miseráveis na alma, em nossa amarga alegria, em nossa ignorância política, em nossas noites vazias ou nos bares ameaçados, nos perigos das esquinas, em síndromes de pânico diante de nossa impotência, no narcisismo deslavado que aumenta entre as celebridades, na ridícula euforia das sacanagens e nas liberdades irrelevantes. A miséria está até na moda - vejam este texto de um catálogo "fashion":

"Use uma calça bacana, toda desgastada, bata na calça com martelo, dê uma ralada no asfalto, ou esfregue a calça com lixa, ou por fim, atropele seu jeans, passe por cima dele com o carro (blindado?). A moda pede peças puídas, como ficam depois de um ataque das traças ou baratas. E, se você tem algo a dizer sobre a vida, diga com sua camiseta, nas estampas com frases no peito..."

Somos vítimas da miséria pelo avesso, porque poderíamos ter um país muito melhor se fôssemos mais generosos. Menos egoísmo seria bom para o "mercado". Mais justiça social seria até lucrativa para os ricos: educação técnica, melhor mão de obra, mais consumidores. Mas, eles só pensam a curto prazo.

Antes, só falava de miséria quem não era miserável, em "fome" quem comia bem. Agora, os miseráveis já falam de nós. Antes, não víamos os miseráveis. Hoje, o menino malabarista nos vê e quer ser visto. Ele se exibe e isso é que nos dói (e ele é uma exceção pacífica.) A outra maneira de aparecer é pela violência. O medo despertou as elites desatentas.

Assim como a corrupção nos abre os olhos, denunciando a urgente reforma do Poder Judiciário paralítico, a violência prova o fracasso da administração pública. Não resolveremos nada. Os miseráveis é que vão fazer isso, aos poucos. E estão se expressando em movimentos de afirmação das periferias. Os marginalizados vão sair do horror para serem fontes de expressão vital. A miséria está nos educando.

E o problema é que ninguém sabe o que fazer. Cada vez mais o mundo vive a dor de um "mal" difuso e sem culpados claros. Leio a entrevista que Zygmunt Bauman deu ao Estadão, sábado passado; o filósofo polonês, estudioso da sociedade contemporânea, criador do conceito de "modernidade líquida", diz coisas excelentes em um diagnóstico do mundo atual, injusto e louco.

Mas, como sempre, na hora das "soluções", surge a ingênua impotência cheia de esperanças. O que fazer?

Aí, ele cita o professor Tim Jackson (da Universidade de Surrey) em sua obra recente, Redefinindo a Prosperidade, que propõe três caminhos para diminuir a pobreza no mundo:

1- conscientizar as pessoas de que crescimento econômico tem limites

2- mudar a lógica social dos governos, para que os cidadãos enriqueçam suas vidas por outros meios que não apenas bens materiais e

3- convencer os capitalistas a distribuir lucros não apenas segundo critérios financeiros, mas em função de benefícios sociais e ambientais.

Ótimo! Boa ideia! Agora só falta combinar com Wall Street e psicanalisar os governantes das nações poderosas.

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