"A Metamorfose", de Kafka, ganha versão em quadrinhos

Franz Kafka tinha acessos de risos incontroláveis ao ler passagens de uma de suas principais obras, A Metamorfose. Na verdade, chegava a chorar de rir. É a essência desse humor, que poucos conseguem detectar em um texto tido como sombrio, que o artista gráfico americano Peter Kuper buscou oferecer em sua adaptação para os quadrinhos, que chega agora às livrarias do Brasil pela Conrad Editora (88 págs., R$ 19).A obra de Kafka (1883-1924), sobre um homem que, sem explicação, amanhece transformado em inseto, começa quando seu protagonista, Gregor Samsa, desperta de "sonhos intranqüilos". O infeliz caixeiro-viajante constata, ainda nas primeiras linhas da novela, que aquele seu pesadelo "não era sonho" e que terá dificuldades para quitar uma dívida do pai com seu empregador.Kafka nunca determinou em que espécie de inseto Samsa se transformava (e não admitia que alguém o fizesse), mas Kuper decidiu dar-lhe o contorno de uma enorme barata. Criador da tira Spy vs. Spy publicada há anos pela revista Mad, ele buscou a fusão dos quadrinhos norte-americanos com o expressionismo alemão, mas sempre preservando o humor e a sagacidade do texto original. "Os personagens angustiados de Kafka em cenários de realidade alterada são feitos sob medida para essa mídia", afirma o ilustrador.Kuper conta que buscou inspiração no traço do cartunista americano Winsor McCay que, em 1904, publicou uma série de tiras com histórias nada convencionais. Em episódios de uma página, um personagem via-se preso a um mundo que se tornava surreal a cada quadro - a perna de um senhor incha e destrói uma mansão, um pretendente desmancha-se em confetes e espalha-se com o vento, a bolsa de couro de jacaré de uma senhora transforma-se em um monstro e a devora. Até que, no último quadrinho, o protagonista acorda no mundo real, jurando nunca mais comer queijo derretido antes de dormir, porque causa pesadelos. "Naturalmente, Kafka nunca permitiu a seus personagens o alívio de voltar à normalidade após sonhos perturbadores", escreve Kuper, na introdução de seu livro.Ele confessa que a adaptação de A Metamorfose não poderia existir sem as palavras iluminadoras de Kafka, tampouco sem as incursões alucinadas de McCay pela escuridão absurda da modorra. "Eu me inspirei bastante nesses dois pioneiros, fascinado por sua habilidade em abordar a condição humana com reviravoltas inesperadas, brilhante talento artístico e humor inescrutável."

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