A mesma velha história

Está fazendo 70 anos que Ilsa Lund partiu de Casablanca com Viktor Laszlo rumo a Lisboa, deixando Rick Blaine envolto pelas brumas do aeroporto e as plateias do mundo inteiro com o coração em pedaços. Como Casablanca estreou aqui em 7 de dezembro de 1942, 11 dias depois da première em Nova York e seis semanas antes de sua entrada em circuito no mercado americano, nossa plateia foi a primeira a sofrer com a prevalência da lógica do esforço de guerra (Laszlo, afinal de contas, era um herói da Resistência) sobre a lógica hollywoodramática da época, pela qual o mocinho não podia perder a mocinha para ninguém.

SÉRGIO AUGUSTO,

01 de dezembro de 2012 | 04h05

 

Se terminasse de forma convencional, com Ilsa conseguindo convencer Rick a deixá-la ficar com ele, para o que desse e viesse, Casablanca não teria se transformado na mais romântica e cultuada história de amor do cinema, nem despertado tanto interesse especulativo pelo destino de seus personagens principais.

 

A produção do filme trabalhou com mais duas hipóteses de desfecho: em ambas Rick ficaria sozinho, e numa delas atrás das grades pela morte do major Strasser. Ao lado de Ilsa, só no wishful thinking dos espectadores, nas conjeturas de alguns escritores e na catártica (e já mundialmente célebre) versão que o jornalista carioca João Luiz de Albuquerque ousou cometer em vídeo quase 30 anos atrás.

 

Remontando toda a sequência final numa ilha de edição, extraindo e acrescentando falas, Albuquerque materializou à perfeição o sonho de milhões de pessoas: Laszlo alçando voo, desacompanhado, Rick e Ilsa abraçados no meio da pista, enfim, sós para sempre. Valeu o esforço, mas em Casablanca, sob o risco de afetar ou mesmo pulverizar sua mística, não se mexe. Refilmá-lo seria uma heresia; quem tentou, na TV, estrepou-se. Sondado, em 1974, François Truffaut nem quis ouvir o resto da cantada. "Os clássicos são clássicos porque são únicos", fulminou o cineasta. Devem ter repetido a frase para Madonna quando ela ameaçou refilmar Casablanca no Iraque.

 

Dar prosseguimento àquela velha história de luta por amor e glória ("still the same old story/a fight for love and glory", diz a letra de As Time Goes By) não afeta a mística do drama original, que dela se nutre, aliás, mas é empreitada caça-níqueis. A própria Warner programou, em 1943, uma continuação (ou sequel, como lá chamam), que levaria o título de Brazzaville e daria conta das andanças de Rick e do (ex-capitão) Renault pelo Congo, lutando do lado da Resistência. Nunca saiu do papel. Soube-se recentemente que um dos roteiristas de Casablanca, Howard Koch, escreveu, há 24 anos, Return to Casablanca, que a neta de um dos fundadores da Warner pretende levar à tela o mais rápido que puder. Sua intriga se passa em 1961, com o filho de Rick (e Ilsa) à procura do pai, no Marrocos, além de embeiçado por uma jovem inspirada na cantora Joan Baez.

 

A partir do final de Casablanca, o jornalista e escritor Michael Walsh montou uma trama que começa com a fuga de Rick e Renault no Buick do mocinho, levado até o aeroporto por Sam, o pianista negro, e Sacha, o fiel barman russo do cassino. O romance, As Time Goes By, editado pela Warner Books em 1998, é divertido e tanto nos leva ao período pós-Ilsa de Rick como recua ao seu passado de gângster em Nova York, nos tempos de Al Capone. Em 1992, num romance do argentino Edgar Brau, intitulado Casablanca, um bilionário portenho ergueria nos Pampas uma réplica do Rick’s Café Américain, assombrado pelos frequentadores do cassino original.

 

A mais imaginosa e deliciosa especulação sobre o que teria acontecido a Rick, Ilsa, Laszlo, Renault & cia. traz a assinatura do crítico de cinema britânico David Thomson. É um dos capítulos (ou verbetes) de Suspeitos, ciranda especulativa com dezenas de personagens famosos do cinema americano interligados de maneira assaz engenhosa. Traduzido pela Marco Zero em 1992 e há muito só à venda em sebos, seu título deriva de um dos bordões mais conhecidos do filme, "Prenda os suspeitos de sempre", que o capitão Renault bradava sempre que precisava fingir que mantinha a lei e a ordem na cidade.

 

Segundo Thomson, Laszlo e Ilsa viajaram de Lisboa para a América, no outono de 1941. Beneficiado por seu status de herói de guerra, Laszlo ganhou a vida fazendo conferências sobre o futuro do socialismo, até se encrencar com a caça às bruxas macarthista, como, de resto, sucedeu com seu intérprete, Paul Henreid. Fumante compulsivo, a ponto de acender dois cigarros ao mesmo tempo (referência cifrada ao personagem que Henreid interpretara em A Estranha Passageira), morreu de enfisema em 1952. Por ser poliglota, Ilsa sobreviveu por uns tempos ensinando línguas e traduzindo as legendas dos primeiros filmes de Ingmar Bergman para o inglês. Também posou para Edward Hopper (é aquela mulher na porta da casa em High Noon, pintado em 1949) e manteve um romance com o poeta, contista e bebum Delmore Schwartz, que a teria homenageado numa estrofe de Vaudeville for a Princess. Seu último emprego foi como secretária do secretário-geral da ONU Dag Hammarskjold, ao lado de quem morreu num desastre aéreo sobre a África, em 1961.

 

Fantasiado por Thomson, Rick ganhou um passado de líder sindical (em Nova York), introduziu Ilsa às ideias de Marx, Trotski, Victor Serge e John Reed (em Paris), e participou da Guerra Civil Espanhola. Depois de matar o major nazista, despachar Ilsa e Laszlo para Portugal e dar início à sua "bela amizade" com Renault, mandou-se para Marrakesh, onde abriu um antiquário com o amigo. Sim, os dois eram gays. E foram felizes até que a morte de Rick os separou, em 1949.

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