A menina que inspirou Alice

Kathryn Beaumont fala sobre o clássico da Disney, que ganha edição especial em DVD e Blu Ray

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2011 | 00h00

Quando se mudou para os Estados Unidos por conta da 2.ª Guerra Mundial, a menina Kathryn Beaumont não sabia que sua vida sofreria mudanças tão radicais. Em 1949, quando estava com 11 anos, ela foi contratada pelos estúdios Disney para ser a inspiração e emprestar a voz à personagem principal da animação Alice no País das Maravilhas, que estreou nos cinemas em 1951. Clássico consagrado, o filme ganha agora uma edição comemorativa em DVD e Blu Ray pelo selo Disney.

"Walt tinha a exata noção de como seria a personagem, que acabou inspirada nos meus gestos e comportamento", contou Kathryn ao Estado, em entrevista por telefone. Os festejos pelos 60 anos da animação voltaram a movimentar a rotina da simpática senhora britânica, que ainda conserva os mesmos trejeitos e faceirices da menina do desenho animado.

Ela, que também dublou a personagem Wendy, em Peter Pan, moldou Alice - seus passos eram acompanhados pelos técnicos do estúdio, que a filmavam em busca de detalhes nos gestos. A medida foi especialmente útil em cenas como a que mostra Alice caindo no buraco que a leva até o País das Maravilhas. "Apesar de ser um trabalho extremamente sério, eu me divertia o tempo todo", conta Kathryn, que não se importou em não continuar no cinema, preferindo a carreira de professora.

A senhora já era contratada pelos estúdios Disney quando foi escolhida para viver Alice?

Sim, eu saí da Metro Goldwyn Mayer, na qual já era contratada como atriz mirim na Inglaterra, para a Disney em 1949 e lá participei dos testes que buscavam uma menina para emprestar a voz a Alice. Sempre me perguntam sobre os motivos de ter sido escolhida e lembro que meu sotaque britânico é que ajudou: Walt Disney buscava uma menina que falasse como uma inglesa, pois essa era a procedência da obra original. E sua preocupação era encontrar uma voz que agradasse também aos britânicos.

E como foi conhecê-lo, trabalhar ao lado dele?

Fiquei nervosa no primeiro momento, pois foi justamente o da assinatura do contrato (risos). Mas logo ele mesmo tratou de deixar o ambiente mais relaxado. Walt não se parecia com aqueles grandes chefes de estúdio, famosos por distribuir ordens para todos os lados. Quando ficou definido que o papel era meu, Walt me mostrou o livro de Lewis Carroll, apontou capítulo por capítulo e me contou a história da forma como ele interpretava determinadas cenas. Foi muito tranquilo.

A senhora precisou da ajuda de um treinador de voz?

Em poucos momentos. Na verdade, foi para ajudar a cantar de forma natural. Esse era o objetivo de todos: que eu agisse e falasse como se estivesse com minhas amigas.

Seus gestos e seus passos inspiraram os desenhistas a criar Alice. Como foi esse trabalho?

Foi engraçado, pois os técnicos me perseguiam com uma câmera de filmar em busca de referências. Era algo rudimentar, uma espécie de ancestral do "live action", mas foi muito útil aos animadores, que puderam ter uma visão mais realista dos movimentos de uma criança.

Creio que foi extremamente útil, especialmente em cenas

como a queda de Alice no buraco, certo?

Sim, essa foi uma das mais importantes. Eles queriam ver o movimento da saia durante a queda, acreditando que se pareceria com um paraquedas. Assim, os técnicos colocaram um arco enorme por debaixo da minha saia. Também fui presa por estribos. Assim, eu simulava uma queda enquanto dizia minhas falas e tudo era anotado pelos desenhistas.

A senhora se lembra de outra cena?

Sim, várias. Gosto daquela em que Alice é muito grande para entrar na casa do coelho. Fiquei sentada em uma mesa e os técnicos prenderam pequenas casas de madeira em meus braços, com as mãos saindo pelas janelas. Os animadores olharam, olharam e comentaram: "Não vai dar certo" (risos). Eles não conseguiam observar os movimentos dos meus ombros nem da cintura. Devolveram as casinhas para a carpintaria que conseguiu produzir um modelo mais flexível.

Esse material gravado ainda existe?

Muitos rolos sobreviveram, ainda bem. E, neste DVD especial, há até uma cena que todos julgavam perdida, em que eu brinco com uma maçaneta. É um documento histórico muito importante de um trabalho árduo e minucioso. Eu me lembro da frase de um animador - segundo ele, todo aquele esforço seria recompensado quando minha família e meus amigos, ao assistirem à animação, ficassem espantados e dissessem: "É você na tela!"

E o que a senhora pensa da moderna versão de Alice dirigida por Tim Burton?

É fascinante como os recursos de efeitos especiais são mais desenvolvidos agora. Claro que tenho um especial apreço pelo papel de Alice, mas aquela foi a minha forma de viver o personagem. Mia Wasikowska, que fez o mesmo papel agora, trouxe características mais adultas à sua Alice, o que também é válido.

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Edição de 60º aniversário. Direção: C. Geromini. Disney. R$ 29,90

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