A menina que chorava

Eu disse algo incrível. Foi sem pensar. Foi verdadeiro. Veio do fundo da alma

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2018 | 02h00

Não sei a ética dos moradores de rua na ocupação do espaço público, se há locatários, um dono do ponto, se há privilégios ou prioridades. Dividem a cidade como os não moradores de rua, em calçadas nobres e populares?

Algumas calçadas das cidades são disputadas, como a da Rua Boa Vista, no centro, entre o Pátio do Colégio, em que a cidade foi fundada, e o Largo de São Bento, em que o papa ficou hospedado, vizinha à Bovespa, CCBB e Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania.

Nela, igrejas estacionam vans com roupas e rango de graça (outro dia, quase comi o hot-dog de uma delas). Deve ser a mais disputada, já que respiradores do metrô aquecem a calçada e moradores as ocupam como um jogo de dominó.

Costumo interagir com aqueles que dormem nas calçadas. Por defesa, já que um cumprimento conquista aliados, e identificação. Já fui algumas vezes confundido com um pedinte. Parado numa esquina, ou num ponto de ônibus, no anonimato da noite, na minha cadeira de rodas, mesmo sem estender a mão, já me deram esmolas. Acontece com cadeirantes.

Me sinto muitas vezes intimidado por passar sobre o dormitório temporário de um morador de rua, com minha roda emporcalhada pelo próprio piso, em que o limite da cama, o estrado, é o papelão e um trapo. Peço licença, peço desculpas.

Tenho a ilusão de que um boa-noite, um sorriso, um simples olhar, reparar nele, reconhecer sua existência, reconhecer um cidadão, é tão valioso quanto uma moeda.

A cidade busca anulá-los. Mas eles estão na paisagem desde os tempos de Cristo. Que tocou neles, lavou seus pés, curou, alimentou, defendeu e em sermões os fez acreditarem que eram iguais a todos. Estarão na paisagem por todos os tempos de todas as cidades.

Segunda-feira é um dia que obrigatoriamente saio pelas ruas. Da 89 FM, na Avenida Paulista, em que comento no programa Rock Bola, até meu bairro. Em que a cada semana vejo o número de hóspedes aumentar. Alguns reconheço. Na hora que saio, estão se acomodando em marquises para a noite imprevisível. 

Na Paulista, vou até o metrô. Por vezes, embarco num busão no ponto da esquina da Consolação. Cruzo com nóias, bêbados, esfomeados. Nunca paro. Sei quem cumprimentar e quem evitar. Sei que jamais serei vítima de violência de um morador de rua “profissional”. São solidários também comigo. Mas temo a imprevisibilidade dos nóias, os surtados, os aventureiros.

Certa noite, desci na Estação da Vila Madalena. Consigo olhar meu prédio ao longe. Se a luz do meu andar estiver acesa, vou para casa me divertir com a criançada. Se estiver tudo apagado, vou para o bar, me divertir com a boemia. Por vezes, com luzes acesas, prefiro a boemia, indisposto a aguentar Black e Bloc, que por vezes chamo de Al e Qaeda.

Poucos moradores se hospedam naquele terminal. Na segunda-feira fria, 23h, uma menina bem-vestida estava estendida num canto escuro, logo na saída da estação. Ela chorava copiosamente. As pessoas passavam, não paravam, ela chorava. Passei, não parei, e ela chorava.

No meio do terminal, me perguntei por que não parei, por que chorava, por que ninguém parava, por que ignorávamos a dor de alguém, para não nos machucarmos também? E pensei em quantas pessoas fiz chorar, exatamente daquele jeito, numa calçada, e calculei quantas me fizeram chorar no busão, metrô, carro, na calçada ou solidão.

Ela deve chorar de amor. Pelo desamor. Ou não. Voltei. Ela continuava só. Fiquei ao seu lado. Perguntei se estava tudo bem. Que pergunta estúpida... Claro que nada estava bem. Perguntei se ela queria que eu chamasse alguém. Ela me olhou ainda aos prantos, em profundo desespero, olhar comovente, e me deu a mão, uma mão quente, macia, muito quente, muito macia, que segurei com todo carinho do mundo.

Perguntei se queria que eu ligasse para alguém. Só me olhava e apertava a minha mão. Aconselhei ir para a casa. Acenou positivamente com a cabeça, mas não se mexeu. Me perguntei se a causa não estaria na casa dela.

Perguntei se queria que eu a ajudasse a embarcar num metrô. Ela fez não. Num táxi? Ela não fez nada. Me olhou suplicando ajuda. Mas que ajuda?

Achei que meu gesto encorajaria outros, algum profissional, alguém com mais tato. Ninguém mais parava. Vi uma mulher parada me olhando furiosa. Percebi que, aos desavisados, parecia que eu era responsável por aquele choro. Poderiam se voltar contra mim, aquele que fez aquela inocente criatura chorar.

Voltei a olhar a mulher furiosa. Era ela a responsável por aquela dor tamanha? Voltei para a solitária. Eu disse algo incrível. Foi sem pensar. Foi verdadeiro. Veio do fundo da alma.

Eu disse algo como uma hora passa, vai por mim, a gente consegue avançar, toda a dor do mundo um dia é substituída, fica na memória, nos faz crescer, evoluir, amadurecer, está lá, mas sobrevivemos, enfrentamos, vamos em frente, amaremos de novo, novas aventuras virão, esqueceremos, amaremos mais, nos surpreenderemos todos os dias, o hoje pode ser infeliz, mas o amanhã pode ser incrível.

Ela parou de chorar, me apertou mais a mão e sorriu. Fiz positivo com a cabeça, ela fez o mesmo. E a deixei ali sentada. Fui embora sem olhar para trás. Não fui para o bar.

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