Divulgação
Divulgação

A memória de Edvaldo, entre o blues e o xote

'Criei coragem para colocar meus sentimentos', diz o cantor e compositor

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2011 | 00h00

Independente há 36 anos, o cantor e compositor Edvaldo Santana contabiliza parcerias com Haroldo de Campos, Tom Zé, Arnaldo Antunes, Ademir Assunção, Itamar Assumpção. Suas músicas foram cantadas por Maricene Costa, Titane, Patricia Amaral, Zélia Duncan, Fabiana Cozza, Miriam Maria, Mona Gadelha, Veronica Ferriani, Soraia Aboim, Rodica Blues, Jordana, Sonia Nascimento, Nalva Aguiar, Ana Torres, Dede Tófoli, Ana Person, Ligia Maria, Daniela Lasalvia.

Veja também:

Crítica: De afetos e de doces lembranças, álbum já nasceu clássico

Nos anos 1980, Edvaldo - piauiense que viveu grande parte da vida na Zona Leste de São Paulo - foi definido pela crítica como uma espécie de "Tom Waits de São Miguel Paulista". Os colegas o saudaram com alegria. "A voz rasgada não deixa o ouvido ileso", disse Arnaldo Antunes. "Garganta profana", definiu Tom Zé.

Na semana passada, com um show no programa Metrópolis da TV Cultura, Edvaldo lançou o seu sétimo disco, o ultra-autoral álbum Jataí - nome de uma abelha. O disco traz uma grande homenagem a um velho parceiro que morreu no ano passado, o agente e empresário e faz tudo de Edvaldo, Waldir Aguiar, na canção Aí Joe. Ambos da Vila Nitro, de São Miguel Paulista, desde 1998 na mesma estrada. Também há canções para o jardineiro Valdemar, que o ajuda na poda das rosas em Itu, onde vive atualmente. E para sua avó - a mais bonita do disco.

É fato que o blues é o combustível mais evidente na mistura de Edvaldo, por causa de sua voz enfumaçada, rouca. Mas é um blues emprenhado pelo baião, pelo reggae, pelo folk, pelo visionarismo.

Edvaldo já tinha 37 anos quando lançou um disco que é um tipo de manifesto de sua arte, Lobo Solitário (1993). Ali, a junção do blues com o Nordeste já dava mostras de que viera para ficar. Gravou também Metrô Linha 743, clássico de Raul Seixas, e buscava uma ponte entre opostos: uma levada funk por cima de observações argutas sobre a vida na São Paulo que tritura os ossos dos ingênuos.

A história do disco foi mostrada recentemente em show no Sesc Belenzinho - em projeto que tem revisitado álbuns fundamentais da história recente da música brasileira. Em Lobo Solitário, o artista gravou Jimi Renda-se, de Tom Zé e Waldez, Edvaldo já conhecia desde 1974, quando trabalhou com Tom Zé; Mãos ao Alto, de Paulo Leminski, ele veio a conhecer no final dos anos 80, quando encontrou Leminski por acaso na casa do poeta Ademir Assunção e o curitibano tocou a canção. "Achei o tema muito interessante e procurei juntar numa suíte as duas músicas, que completei quando musiquei Freguês Distinto, poema do Leminski", explica hoje Edvaldo.

Com seu jeito cordial, Edvaldo incorporava de tudo. Sobre ter deixado de lado as parcerias para fazer um disco inteiramente autoral, ele diz o seguinte: "Muitas vezes os parceiros não estão na mesma sintonia. Não deixarei de compor com outros, apenas criei a coragem necessária para colocar meus sentimentos do modo mais simples e mais perto do momento que vivo agora" .

Esse novo álbum de Edvaldo Santana parece unir as duas pontas - a visão profunda de Lobo Solitário com o mergulho na própria alma do artista que faz seu caminho sozinho, à mercê dos imprevistos - e utilizando-os como trunfo.

EDVALDO SANTANA

JATAÍ

Independente. R$ 20

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.