A melhor fase do Nobel

Estudo destaca como José Saramago diagnosticou o presente em sua obra

CARLOS FELIPE MOISÉS, ESPECIAL PARA O ESTADO, CARLOS FELIPE MOISÉS É POETA (NOITE NULA, 2008), CONTISTA (HISTÓRIAS MUTILADAS, 2010), ENSAÍSTA (TRADIÇÃO & RUPTURA, 2012). É EX-PROFESSOR DE LITERATURA PORTUGUESA DA USP, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2012 | 02h10

Depois da perda definitiva das colônias africanas, Portugal se vê obrigado a encarar o que restara do grande império erguido na época dos Descobrimentos, e cuja memória teimara em persistir até a queda do fascismo, em 1974. É nesse momento, sobretudo nos anos 80, que a carreira literária de José Saramago (1922- 2010) deslancha para valer.

A crise de identidade que se abatera sobre o país após a Revolução dos Cravos incita a repensar a História e a enfrentar a realidade presente, como o faz Saramago em Levantado do Chão, Memorial do Convento e tantos outros romances ganhadores de prêmios e traduzidos para vários idiomas, todos inspirados em matéria histórica, mas empenhados em diagnosticar o tempo presente.

Saramago desenvolve a "tese" surrealista, portuguesa, que diz: a realidade histórica é só um "texto" que cada qual lê à sua maneira, sempre sob a perspectiva de outro texto (já sem aspas), que remete a outro texto, e outro, e outro... como temos, por exemplo, no pioneiro poema-livro de Mário Cesariny Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, de 1953.

Ao tentar compreender o que se passa no presente, o português tende a (re)ler a visão de realidade que a tradição histórico-literária vem acumulando, de geração em geração. Se não é mais que "texto", a realidade estará sempre na dependência do poder de persuasão da escrita, da linguagem ou da exuberância de estilo do escritor-intérprete. É a essa tarefa que Saramago se dedica, com afinco e brilho invulgares, a partir dos anos 80.

E é essa a fase da sua carreira focalizada no livro de Eula Pinheiro José Saramago: Tudo Provavelmente São Ficções; Mas a Literatura É Vida, título que já é um parágrafo, anunciador de que é preciso rever, para além ou aquém dos fatos históricos, as sucessivas interpretações (ficções) formuladas pelos escritores do passado, sobretudo Camões. E Saramago chega até Fernando Pessoa, neste livro-chave que é O Ano da Morte de Ricardo Reis.

Eula Pinheiro, estrategicamente, não discute a evolução da longa trajetória percorrida pelo romancista, optando por se circunscrever àquele momento especial que resultou em torná-lo unanimidade, não só em Portugal e no Brasil, mas, após o Nobel (1998), em várias partes do mundo.

Nos seus vários capítulos, o livro descreve, com liberdade, os motivos histórico-literários abordados naquela série de romances, destacando-se a veneração incondicional que a autora consagra ao ganhador do Nobel, cujos admiradores saberão apreciar esta demonstração inequívoca de devoção irrestrita.

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