A medeia que une os estrangeiros

A partir do mito grego, a cia. paulistana Tablado de Arruar constrói um espetáculo em parceria com atores alemães

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2010 | 00h00

"Assim você pode escrever um conto kafkiano em vez de uma notícia de jornal", sugere o diretor Alexandre Dal Farra. Quando proferiu a frase, ele contemplava desolado uma xícara de café que havia acabado de derrubar inteira sobre a mesa. Mas sua evocação referia-se menos ao simples descuido com a bebida do que à aura de absurdo que envolvia aquela tarde, às vésperas da estreia de Pele de Ouro / Novos Argonautas.

Mais recente criação do Tablado de Arruar, a peça que entra em cartaz hoje no Sesc Pinheiros tem rendido boa dose de dores de cabeça ao diretor. Acostumado aos espetáculos de rua, Dal Farra viu-se aturdido pelos problemas com o palco, acertos de logística, falhas com os refletores. Além das habituais agruras de produção, porém, grande parte de suas aflições deve-se à condição singular de Pele de Ouro: resultado de um improvável intercâmbio da trupe paulistana com um grupo de artistas alemães.

A parceria se insinua desde 2007, quando a dramaturga Tine Rahel Völcker veio ao Brasil e aproximou-se do Tablado. A relação estabelecida sempre foi intermitente. Mas, mesmo em meio a encontros e desencontros, eles conseguiram conceber um projeto comum. Há exatamente um ano, chegaram a fazer duas apresentações da montagem no Maxim Gorki Theater, de Berlim.

Assim como lá, os diálogos surgem de uma confluência de línguas: misturam alemão, francês, inglês e português. A versão brasileira, contudo, mereceu algumas adaptações.

"Havia coisas que funcionavam na Alemanha e que não faziam muito sentido aqui, soavam um pouco ingênuas", diz Dal Farra, que escreve o texto ao lado de Tine. Dirigida pelo alemão Tilmann Köhler, a peça relê um mito grego em duas partes: uma a cargo de cada um dos dramaturgos.

Medeia brasileira. À autora germânica coube a criação de uma versão brasileira da mulher de Jasão. "Não comprei a ideia de imediato. Achava que isso já tinha sido feito", comenta o integrante do Tablado de Arruar. Mas o olhar de Tine em nada se aproxima de outras releituras nacionais, como é o caso do já clássico Gota d''Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes. No texto atual, Medeia trava um embate com Glauce, nova mulher de seu amado. E ambas oscilam constantemente nas posições de vítima e algoz.

Na mitologia, o episódio da infanticida aparece inserido em um ciclo narrativo maior, a saga dos Argonautas, e é deles que se ocupa o quinhão da peça escrito por Dal Farra. Aqui, os aventureiros gregos são transformados em desbravadores europeus e a arriscada saga em busca do Velocino de Ouro é transposta para a América do Sul.

Na sala de ensaio, a apenas dois dias da estreia, o diretor alemão Köhler ainda precisa recorrer constantemente à tradutora para passar instruções de novos cortes e adaptações. Mas o sentido geral da história já está definido e se aproxima de uma metáfora sobre a própria relação estabelecida entre as duas companhias. "Para cada um dos personagens o Velocino de Ouro tem um sentido", diz o autor. "No fundo, ele representa uma utopia, a da possibilidade de encontro com o estrangeiro."

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