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A meca dos cinéfilos

Virou ponto de encontro de críticos, diretores, atores e outros profissionais da indústria

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

15 de janeiro de 2022 | 03h00

No dia (6 de janeiro) em que Peter Bogdanovich morreu, cogitei escrever sobre ele, menos sobre seus filmes que sobre sua carreira de jornalista e crítico de cinema no início dos anos 1960, quando o conheci pessoalmente. Ele ainda teria de esperar quatro anos para dirigir seu primeiro filme, Na Mira da Morte. Em novembro de 1963, também integrava o exército de jornalistas convidados pelo produtor e diretor Stanley Kramer para a estreia mundial da comédia Deu a Louca no Mundo. Peter a serviço da revista Esquire, e eu, modestamente, do jornal carioca Correio da Manhã

Por estranho que pareça, falamos menos de filmes, na curta prosa que a azáfama do evento nos permitiu, que de uma livraria especializada em cinema, no 6.658 da Hollywood Boulevard, que eu, calouro em Los Angeles, conhecia apenas de nome, fama – e encomenda.

Sim, encomenda. Levava comigo uma lembrancinha para a dona da livraria, com os cumprimentos de seu velho amigo brasileiro Gilberto Souto. O mimo era uma caixa de sabonetes Phebo. “Git é louca pelo perfume do Phebo”, explicou-me Gilberto, que praticamente me intimou a visitar a Larry Edmunds Bookshop e nela torrar boa parte dos meus dólares. 

Antes que o leitor se perca, as apresentações necessárias. Gilberto Souto fora correspondente em Hollywood da revista Cinearte, do começo do falado ao início dos anos 1950, e já era, então, responsável pela publicidade da distribuidora United Artists no Brasil. (Ainda escreverei um perfil de tão invejada figura em espaço mais condizente.)

Git era mulher de Milton Luboviski, que herdara a livraria, especializada em literatura e com William Faulkner entre seus frequentadores mais assíduos, depois do suicídio do proprietário original, Larry Edmunds, no início da 2.ª Guerra. Milt e Git a transformaram na mais bem fornida bookshop sobre cinema do planeta, uma Xangri-Lá para cinéfilos do mundo inteiro. 

Com milhares de livros, meio milhão de fotos, revistas, folhetos, scripts e toda sorte de memorabilia cinematográfica (seu catálogo anual tinha mais de 200 páginas), virou ponto de encontro de críticos, diretores, atores e outros profissionais da indústria número um da cidade, além de locação para filmes e telesséries. Há uma cena de Um Doido Genial, em que Jeanne Moreau e Donald Sutherland conversam na porta da Larry Edmunds.

Freguês instantâneo, abri conta e nunca deixei de visitá-la (há três décadas no 6.644 do mesmo boulevard e com novo dono faz tempo). Git e Milt? Não mais habitam este mundo. Fora de seu reino só os vi uma vez: dentro de um carro, na sequência do drive-in de Na Mira da Morte. Bogdanovich fizera questão de homenageá-los logo em sua estreia como cineasta. 

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