A matéria da poesia e a imagem perdida

"As coisas que não existem são mais bonitas", diz um dos versos do poeta Manoel de Barros que a artista Rosângela Rennó escolheu para acompanhar uma de suas novas séries fotográficas, Matéria de Poesia. Até então inédita no Brasil, a obra, que pode ser vista agora na sala principal da Galeria Vermelho, é formada por três grupos de imagens feitas a partir de sobreposições de slides antigos que revelam registros antigos de viagens, vistas de cidades, pessoas de um outro tempo. "Cria-se uma espécie de paisagem negra", descreve Rosângela, artista que trabalha com a fotografia sem a necessidade de ela mesma realizar o ato fotográfico, mas utilizando imagens apropriadas ou encomendadas. "Meu prazer é agregar valores simbólicos, somar significados às imagens, multiplicar a reflexão", diz a artista.

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2010 | 00h00

"As coisas sem importância são bens da poesia", este, outro verso de Manoel de Barros, está figurando numa outra obra da série. É que Matéria de Poesia (que atualmente a artista também exibe na Galeria La Fabrica, em Madri) traz à tona as imagens dos slides que ninguém mais quer. "No mercado de pulgas, são os mais baratos que se compra", conta Rosângela - e ela diz ter um arquivo de mais de 10 mil exemplares dessas "imagens perdidas", feitas em tantos lugares do mundo (até, geralmente, a década de 1970), todas elas guardando em si certa "fragilidade do documento".

Lixo. A construção da artista é criar novas imagens pela justaposição de fotografias que seriam "lixo" - ou, se referindo à poesia de Barros, Rosângela faz versos a partir do que seria elemento insignificante da natureza, detalhes ínfimos. No grande painel na parede da galeria, a vista de uma cidade se faz a com a sobreposição de seis imagens de cidades no grupo de obras em que prevalece o vermelho; em outro trabalho, um pedaço de mar entra naturalmente na camiseta de um menino que está em um jardim de atmosfera azul - e há ainda outro núcleo no qual é o verde que se expande.

É, enfim, uma criação lenta da artista e até mesmo lírica - "as imagens de slides são sempre prazerosas" -, mas nem por isso, como ela defende, desengajada. "Sempre tratei em meu trabalho do que está desaparecendo nesse tempo em que tudo é tão rápido, imediato, atropelado. É preciso diminuir a velocidade para a absorção e reflexão."

Tanto que a exposição de Rosângela ainda é formada por uma instalação em que ela trata da perda da tradição no Nordeste da fotopintura pelo uso do photoshop; por uma série feita com os versos de fotografias que foram roubadas em 2005 da Biblioteca Nacional (e recuperadas, ainda que algumas deterioradas); e pelo vídeo Bouk, o registro com música de uma volta em sentido contrário pela Ilha da Reunião - um "retorno impossível".

A Galeria Vermelho ainda exibe a obra MIC, do grupo carioca Chelpa Ferro, e a videoinstalação Disque M para Matar, de Leandro Lima e Gisela Motta.

ROSÂNGELA RENNÓ

Galeria Vermelho. Rua Minas Gerais, 350, tel. 3138-1520. 10h/ 19h; sáb., 11h/ 17h (fecha dom. e 2ª). Grátis. Até 8/5

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