A marcha dos pinguins

Robin Williams fala de política, carreira e sobre Happy Feet 2, no qual dubla os personagens Ramon e Lovelace

O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2011 | 03h08

Robin Williams parece ter, em seu encalço, uma câmera ligada 24h. Qualquer pergunta é deixa para caras e bocas, vozes estridentes, caricaturas. Ele mesmo parece plugado no 220V. Com 60 anos recém-completados, o ator americano que se consagrou por personagens engraçados, vozes e mimetismos está recuperado de uma fase marcada por revezes - nos últimos três anos, internou-se para tratar de alcoolismo, terminou um casamento de 20 anos, sofreu uma cirurgia do coração.Hoje, mostra-se agradecido pelo que chama de "chance de recomeçar do zero". Mas, claro, sem perder uma piada sequer. Promovendo seu último trabalho, a dublagem de dois pinguins, o latin lover Ramon e o misterioso Lovelace, na animação Happy Feet 2, que estreia nesta sexta nos cinemas do País, Williams falou de família, realizações e da disposição de expurgar seus fantasmas no palco.

Não se pode dizer que Happy Feet 2 foi algo desafiador para você. Isso é diversão, certo?

Pura diversão! É um barato tão bom que é como se fosse uma droga legalizada. George (Miller, diretor) é uma comédia à parte. Ele fica na cabine, de fone, em silêncio, olhos fechados, ouvindo a cena. Então, ele grita: "Isso!" Eu pensei: Uh, ele está fazendo sexo por telefone! (risos) Ele pôs os dubladores na mesma sala, Ao meu lado estavam Hank Azaria e Sofia Vergara. Isso sim foi um presente. Ela é tão sexy!

Como você criou essas vozes?

Ramon tem sotaque latino e com Lovelace rolou uma coisa meio Barry White. Tudo isso vem do fundo da minha cabeça. Essas vozes vêm facilmente. É só deixá-las sair.

Que lembranças tem dos desenhos que via na infância? O que vê hoje?

Sabe aquele lobo de desenho animado, que quando passa uma gostosa, o queixo cai no chão? Esse sou eu na vida real (risos). Hoje gosto de Hayao Miyazaki (de A Viagem de Chihiro) e, é claro, de Papa-Léguas e Coiote. Uma vez, encontrei Chuck Jones (criador do Coiote) e ele me contou que o Coiote é um personagem de tragédia grega. Porque é cômico, mas sua sina é trágica. Ele me ensinou a primeira lei da animação: não há gravidade até que você olhe para baixo. Animação é isso mesmo: fazer suas próprias leis. Até quando se trata de gravidade.

Você parece sempre ter uma piada pronta. Seu bom humor é constante?

Não, não sou sempre assim e é estranho, porque as pessoas esperam que eu seja. Uma vez, uma senhora me cutucou no aeroporto e me pediu para fazer algo engraçado. É como passar por Baryshnikov e gritar: "Dance, seu desgraçado". Não funciona assim. Vou contar uma história verídica. Uma noite eu estava lendo para minha filha, ela tinha 3 anos. Eu estava todo animado e ela me cortou, dizendo: "Pai, não faça vozes. Só leia a história".

Há uma grande discussão sobre os limites da comédia e até onde se pode ir sem se tornar ofensivo. O que acha?

Já tivemos exemplos de gente que derrubou o que parecia ser todos os limites, como Borat. Precisou aparecer alguém como ele para que tivéssemos colhões de fazer o mesmo. Tentam imitá-lo até hoje. Mas o que acontece é que, se você tiver pudor, as pessoas vão perceber seu medo. Esse é o perigo. Uma das comédias mais obscuras que já vi foi Dr. Fantástico, que fala do fim do mundo e tira sarro disso.

Você montou um stand-up (Armas de Destruição de Massa, de 2009) e excursionou pelos EUA com temas políticos e pessoais, como o alcoolismo. Não teve medo de julgamentos?

É preciso estar disposto a tudo. Eu falo, sim, de coisas pessoais. Você mencionou o alcoolismo. Bom, isso aconteceu comigo! Houve um momento que pensei: vou conseguir falar disso? Sim. E isso me ajudou. É como se fosse parte da terapia. Para um comediante, é inescapável, você precisa falar das coisas. É a minha realidade. Não vou esconder ou negar o fato de ter ido para reabilitação. Foi terapêutico falar da cirurgia do coração, o sexo depois dela e simplesmente a ideia do que será da minha vida depois de tudo isso...

Também é um meio de se expressar politicamente, não?

Deus! Se eu não falasse sobre política quando tiver chance, estaria louco.

Você acaba de se casar novamente. Como foi a lua de mel?

É um clichê, eu sei, mas Paris é maravilhosa. Lá, três coisas são suficientes: se divertir, comer e amar. Nenhum dia ruim. Ficamos num hotel antigo, rústico. Parecia que a qualquer momento o Corcunda de Notre Dame ia aparecer e dizer "serviço de quarto?" e tocar um sino gigante.

Você mencionou sua cirurgia do coração há três anos. Há quem diga que situações de risco de saúde levam a uma reflexão sobre valores. Aconteceu com você ou é bobagem?

Não, não é bobagem. Você se torna realmente grato por estar vivo. E passa a apreciar as coisas pequenas da vida. Elas se tornam grandes, família, amizades. É como se eu hoje fosse uma versão 2.0. Quando eu acordei da cirurgia, perguntei: "Meu Deus, onde estou?" Olhei para baixo, na cama, e vi aquele monte de fios saindo do meu peito. Aquilo foi "Uau". Ganhei a chance de começar do zero de novo, de coração novo.

Você deixou muita gente brava

no Brasil quando criticou a escolha do Rio de Janeiro para Jogos

Olímpicos de 2016...

Ai, sim, me lembro disso... Posso me desculpar agora? Foi uma piada que eu fiz. Eu li um artigo sobre os assaltos e sequestros no Brasil. Daí escolhem o Rio, sabe? Soube que alguns políticos brasileiros ficaram realmente bravos comigo. E eu só sabia falar: "Tudo bem?" e "Obrigado". Eu disse que Chicago mandou Oprah e Michelle Obama, enquanto vocês levaram 50 strippers e cocaína. Droga, ofendi todo mundo! Me desculpe! É o que acontece com comédia. Quando você ultrapassa essa linha, tem gente que vai rir e gente que vai se ofender. É tarde demais para se desculpar, está dito. Sinto muito, mas isso é comedia. Agora, no Rio tem sequestros?

Sim, infelizmente.

Li que, no Rio, depois das 22 horas, você pode ultrapassar o sinal vermelho, para evitar assaltos. É verdade?

Bem, é algo que acontece.

Ah! Eu sabia, eu sabia! (risos)

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