A Marcha dos Bonecos

Banda gaúcha só se apresenta com máscaras e se comunica com o público por meio de um gravador. Seria bizarro se o som não fosse tão bom

Cristiano Bastos, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

Uma banda que jamais mostra a cara de seus integrantes nem revela suas identidades. Apresentam-se com o rosto coberto por uma meia-calça e cartolas com lanternas de minerador. Seria ridículo se a música fosse ruim, o que não é o caso do som feito pela banda porto-alegrense Procura-se Quem Fez Isso. E o sentido de tudo é: a música, não os indivíduos, devem ser o mais importante. Até a entrevista ao Estado é dada por um robô, programado para dizer frases como "as aparências costumam levar a associações, rótulos e estereótipos que atrasam o desenvolvimento da linguagem musical livre." As mensagens foram enviadas ao repórter em MP3.

A banda, que já possui o EP Não Tivesse Coisas Novas Pra Lhe Dizer, gravado em 2005, com quatro músicas, também não fala com o público - a não ser pela música. No palco, a comunicação é possível por meio de um gravador que transmite mensagens, cuja voz não pertence a nenhum dos integrantes. Antes de cada apresentação, um programa com o repertório do show é entregue. O objetivo é que cada apresentação seja levada a sério como espetáculo musical. "É como um teatro", afirma a lacônica voz digitalizada.

Arnaldo Baptista e Os Mutantes são duas das maiores inspirações da PQFI, assim como Arnold Schoenberg, Flaming Lips, Francisco Alves, Captain Beefheart e Mothers of Invention. Burt Bacharach, Beach Boys, Beatles e a musicalidade circense complementam a fórmula. "É praticamente um clássico da música experimental moderna brasileira ainda sem lançamento", aposta o editor do site Senhor F e produtor da banda Superguidis, Fernando Rosa.

Arnaldo Baptista ouviu o grupo a pedido do Estado. Suas palavras: "A música alcança-me poeticamente", disse sobre a canção A Marcha dos Bonecos.

Em seu estúdio-ateliê em Juiz de Fora, Minas Gerais, o homem que concebeu Loki? também escutou outras duas canções: Bagdá (She''s My Baby) e Ele Quer Todo Mundo a Seus Pés. Com a candura que lhe é peculiar, Arnaldo metaforiza a letra que fala da "política dos homens-bonecos": "São aqueles indivíduos que trabalham cinco meses por ano só para pagar impostos. As letras reclamam o certo", diz.

De passagem pelo Brasil, em novembro, a surf-garageira The Mummies, da Califórnia, se apresenta em São Paulo (Clash Club) e, depois, no festival Goiânia Noise, em Goiânia. Menos niilista que os Mummies, a Procura-se quer "romper com as barreiras superficiais que possam atrapalhar o caminho da música". Apesar da estranheza, a aceitação do público tem sido muito boa. Foi o que se constatou na última edição do Festival Bananada, em Goiânia. O público se sintonizou no sério, mas lúdico, espírito do grupo. Um dos fundadores do selo Monstro Discos, Fabrício Nobre, revela que a PQFI foi uma das melhores bandas que ouviu recentemente. "A Procura-se Quem Fez Isso é uma das minhas apostas para 2010", diz Nobre, que cita ainda a acreana Caldo de Piaba e a paulista Pélico. Em Porto Alegre, a PQFI abriu para Os Mutantes e ganharam elogios rasgados de Sérgio Dias, irmão de Arnaldo.

O guitarrista e produtor mineiro John Ulhoa que, em 2004, produziu Let It Bed, mais recente álbum de Arnaldo Baptista, também ouviu a PQFI. João conta que gostou muito do que ouviu. "Me pareceu uma banda de som quase progressivo. Ao mesmo tempo divertida, o que é quase impossível de se achar por aí." O grupo tem um pé em Mutantes, mas, no entanto, mais minimalista. Fora a complexidade dos acordes. "Um belo achado. E o visual é muito bom!", diz Ulhoa.

Outro item que desperta curiosidade do público é o antigo órgão vermelho de fabricação brasileira usado pela banda. O som é ainda "acolchoado" por sintetizadores modernos, guitarras e um pouco de samba. As letras, diz "a voz", concentram-se na "essência de um refrão e na sua repetição." Em alguns momentos, o formato assemelha-se à poesia haicai, que chamou a atenção do poeta e tradutor gaúcho Paulo Neves, que passou a contribuir com as letras. Conhecido por suas parcerias com Zé Miguel Wisnik, Neves escreveu trechos de A Marcha dos Bonecos. Ele também trouxe duas canções que, em breve, estarão no repertório: Minhas Coisas Favoritas, versão aportuguesada do clássico My Favorite Things, de John Coltrane, e a instrumental Isabel (Bebel), de João Gilberto, que foi letrada por Neves. A canção é mais conhecida na interpretação dos Novos Baianos. Outra mensagem digitalizada informa: "Idolatramos os provérbios. Antes eram os ditos populares e agora é o Twitter. A verdade é que adoramos refrões."

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