A marca humanista de Angelopoulos

Morto na terça, diretor grego é dono de obra sempre intensa, angustiante e enigmática

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2012 | 03h08

Em uma das suas últimas entrevistas, o diretor grego Theo Angelopoulos declarou que na crise atual do seu país as pessoas seriam obrigadas a viver como no pós-guerra. "Devemos voltar aos valores do humanismo e deixar de explorar as pessoas", disse. Com 76 anos, Angelopoulos morreu anteontem, atropelado por uma moto, enquanto rodava um filme tendo por tema... a crise grega. Cruel ironia. Mas a mensagem humanista é o que de melhor ele deixa, em suas palavras e, acima de tudo, em sua obra.

Angelopoulos, autor de filmes notáveis como Paisagem na Neblina e O Passo Suspenso da Cegonha, era um dos últimos mestres do cinema em atividade. Teve grande reconhecimento no circuito do cinema de autor e ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 1998 por seu A Eternidade e Um Dia. É dono de obra sintética, porém marcante, cujos pontos mais altos são Os Atores Ambulantes, de 1974, Viagem a Citera, de 1984, O Apicultor, de 1986, Paisagem na Neblina, de 1988; Um Olhar a Cada Dia, de 1995; O Passo Suspenso da Cegonha, de 1991, e a Trilogia - O Vale dos Lamentos. Dirigiu atores como Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau, Bruno Ganz, Willem Dafoe, Irène Jacob, Michel Piccoli e Harvey Keitel.

Angelopoulos esteve no Brasil em 2009, homenageado pela 33.ª Mostra de São Paulo. Veio para cá receber o Prêmio Humanidade. Alguns anos antes a Mostra havia realizado uma retrospectiva ampla de seus filmes. Em 2009 apresentou aqui A Poeira do Tempo, seu último longa-metragem concluído. Em sua visita a São Paulo, filmou o curta O Céu Inferior, do longa de episódios O Mundo Invisível, ainda inédito comercialmente, apresentado ao pública da Mostra em 2011.

Nascido em Atenas em 1935, o cineasta fez estudos de Direito em sua cidade, mas não terminou o curso. Mudou-se para a França com intuito de estudar literatura na Sorbonne, e depois foi aprender cinema no célebre Institute des Hautes Études Cinématographiques. De volta à Grécia, tornou-se crítico de cinema de um jornal de esquerda, o Allagi, carreira abortada pelo golpe militar dos coronéis que tomaram o poder e fecharam a publicação. Sem emprego, decidiu tentar a sorte no cinema. Influenciado pelas ideias de Bertolt Brecht, planejou compor um grande afresco histórico do seu país, dos anos 1930 (Dias de 36, evocando a morte de um líder sindical) aos tempos mais contemporâneos, com Os Caçadores e Os Atores Ambulantes.

Em sua trajetória, Angelopoulos foi apurando ligeiramente o ângulo do seu interesse. Dos primeiros filmes abertamente políticos, e testemunhos de uma época de turbulência, passou a um enfoque mais pessoal, mas no qual a História ocupava lugar importante. A fase final reflete uma busca mais madura e incessante de uma compreensão profunda do caos do mundo. O filme que rodava quando a fatalidade o colheu mostra que sua preocupação com a realidade, com a dramaticidade do real, continuava intacta.

Realidade e fantasia. Sua estética, baseada em planos longos e movimentos de câmera suaves, não contribuíram para que se tornasse particularmente popular. No entanto, Angelopoulos foi sempre muito bem agraciado pela crítica. E pelos festivais de cinema. Leão de Prata por Paisagem na Neblina, uma obra-prima. Com Um Olhar a Cada Dia, venceu o Prêmio Especial do Júri em Cannes, o mesmo festival que, no ano seguinte, lhe daria seu prêmio máximo, a Palma de Ouro por A Eternidade e Um Dia.

Há quem o considere seu mais belo filme. Em A Eternidade e Um Dia (disponível em DVD pela Versátil), Bruno Ganz é o poeta que, descobrindo-se doente, mergulha num processo memorialístico, lembrando-se da mãe, da mulher morta, da infância. Realidade e fantasia mesclam-se. Um pé no passado e outro no presente: o velho escritor conhece um menino albanês, refugiado, e decide cuidar dele. Ou talvez fosse melhor dizer: o menino é quem cuida do velho. Nesse filme tocante temos Angelopoulos em sua dimensão maior, com a paisagem interior dialogando o tempo todo com a aspereza da História. Há crianças também em Paisagem na Neblina, com os dois irmãos em busca de um pai improvável. Dois seres frágeis diante da brutalidade do mundo.

E há tempo, memória e avaliação histórica em A Poeira do Tempo, segunda parte da trilogia de Theo Angelopoulos sobre as raízes da Grécia no século 20. Um cineasta americano (Willem Dafoe), de ascendência grega, realiza um filme contando a história de sua família.

A narrativa se desdobra entre vários tempos e países, da Grécia à antiga União Soviética, passando pela Itália, Alemanha, Canadá e EUA. Remonta à Segunda Guerra, passa pela Guerra Fria e traz a história até a contemporaneidade, ou seja, até a era iniciada com a queda do Muro de Berlim. Ambicioso, espraia-se por um naco considerável daquele que o historiador britânico Eric Hobsbawm chamava de "breve século 20", iniciado, para ele, com a Primeira Guerra e encerrado com a simbólica queda do Muro. Tudo o que somos hoje o devemos (para o bem ou para o mal) a essa longa tragédia de um tempo histórico acelerado e não raro ensandecido. Angelopoulos busca algum sentido nesse caos.

Seu cinema se estrutura em planos sequências que se aproximam de forma lenta dos seus "objetos", muitas vezes sem mostrá-los por completo. Porque há opacidade na história das gentes e dos povos. Por isso também é um cinema da névoa, porque enxergamos pouco e muitas vezes alcançamos o máximo de lucidez quando perdidos em meio à neblina. É um cinema lindo, intenso, por vezes angustiante e enigmático. Atravessamos esses filmes como quem atravessa um sonho. Vida é sonho, nas palavras de Calderón de la Barca.

Angelopoulos cunhou um estilo que evita os closes. Respeitar a intimidade do personagem. É uma das formas possíveis de ser humano. Jamais invadir-lhe a intimidade. Jamais filmar um plano banal. São maneiras de construir a profundidade em cinema. Para o qual é preciso, primeiro, ter uma mente profunda. Rever essa obra, agora infelizmente encerrada, é avaliar a dimensão da nossa perda. Angelopoulos é insubstituível.

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