A marca do zorro

Quando em agosto ocorreu o massacre de Tamaulipas, me lembrei de um escritor mexicano que muito admiro, Juan Villoro, autor de uma frase quase tão lapidar quanto aquela de Porfírio Diaz ("Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos"). "No México", escreveu Villoro, "todas as catástrofes e todas as surpresas são possíveis." Nunca traduzido no Brasil, mas espero que bastante lido na internet (Letras Libres, Jornada), o premiado romancista de El Testigo ganhou mais notoriedade, ultimamente, como jornalista, por conta de seus contundentes artigos sobre a atuação do narcoterrorismo, que, aliás, lhe valeram um dos prêmios Reis de Espanha de Jornalismo deste ano.

Sergio Augusto,s.augusto@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

Ora, se não foi uma surpresa (e uma catástrofe para o império espanhol) o "Grito de Dolores" com que o padre Miguel Hidalgo deslanchou o processo de libertação do México, em 16 de setembro de 1810; e uma catastrófica surpresa para o ditador Porfírio Diaz a revolução que Francisco Madero precipitou em 20 de novembro de 1910.

Com singular regularidade, de cem em cem anos, o México apronta uma. Ou melhor, aprontava. Embora ainda faltem três meses para o réveillon, nem Nossa Senhora de Guadalupe conseguiria fazer de 2010 o ano em que os mexicanos concretizaram sua terceira revolução, libertando-se para sempre do narcoterrorismo.

Sem outra alternativa, celebremos, de preferência com tequila, as revoluções aniversariantes. E, com maior júbilo, a centenária, que, apesar dos pesares, foi a primeira insurreição popular bem-sucedida do século passado. A editora Boitempo já ergueu o seu brinde, lançando há dias uma nova e caprichada tradução de México Insurgente (320 págs., R$ 48), de John Reed, a mais notável cobertura jornalística da rebelião que ao mundo revelou Pancho Villa, Emiliano Zapata e La Cucaracha.

O mais jovem e admirado correspondente de guerra de seu tempo, o americano Reed - cuja cobertura da Revolução Soviética resultaria num best seller mundial (Dez Dias Que Abalaram o Mundo) - passou quatro meses no México insurrecionado. Lá só chegou depois do assassinato de Madero, em 1913. Misturando-se às tropas rebeldes, viu tudo sem intermediários e em primeira mão. De quebra, ganhou a confiança de Pancho Villa, a quem retratou como o oposto do bandidaço demonizado pela imprensa marrom de William Randolph Hearst. Seus relatos, reunidos em livro em 1914, serviriam de base ao malogrado épico cinematográfico de Eisenstein, ¡Que Viva México!, e seriam dramatizados num falso (e ótimo) documentário dirigido pelo mexicano Paul Leduc em 1973.

Um ano antes de México Insurgente chegar às livrarias, outro jornalista americano, Ambrose Bierce, desaparecera subitamente no turbilhão revolucionário. Nunca mais foi visto, deixando para Reed toda a glória pela cobertura da insurreição. Há quem acredite que Bierce, sabe-se lá por que, trocou de nome, acrescentou barba ao bigode e viveu na clandestinidade o resto da vida, sempre no México, a exemplo de outro misterioso emigrado, de origem europeia, que com o nom de plume de B. Traven publicou vários romances de sucesso, entre os quais O Tesouro de Sierra Madre, adaptado ao cinema por John Huston.

B. Traven e, eventualmente, Bierce pegaram bem o espírito da coisa, entenderam e aproveitaram-se da vocação dos mexicanos para o ocultamento, o disfarce, o anonimato. Só a banalização da morte (comida pelos mexicanos até em formato de guloseimas, no Dia de Finados) supera, naquelas bandas, o culto à máscara, a crença na superioridade da força encoberta. O poder atávico dos disfarces na história mexicana remonta a um dos mitos fundadores da civilização asteca, Tezcatiploca, que derrotou Quetzacóalt desnudando sua identidade diante de um espelho, e se impôs a heróis reais e lendários, de Pancho Villa (nascido José Doroteo Arango) ao glamouroso Comandante Marcos, que fez da máscara um dos segredos de sua popularidade, passando pelo poeta Mario Santiago Papasquiaro (pseudônimo literário de José Alfredo Zendejas Pineda, também conhecido como Ulises Lima, no romance Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño, que, por seu turno, assume no livro a persona de Arturo Belano).

Na Coluna da Independência, na Cidade do México, há uma estátua de um homem barbudo que, de mãos atadas, contempla o horizonte. Nada o identifica; é um herói anônimo, cuja identidade, contudo, foi há muito desvendada, mas mantida na penumbra para não afetar sua aura mítica. É William Lamport, um irlandês que, na metade do século 17, tomou as dores dos indígenas e escravos subjugados pela coroa espanhola e proclamou-se rei do México, ou da Nova Espanha, como o México era então conhecido. Preso e torturado, fugiu da masmorra, peitou a Inquisição e logrou enforcar-se antes de arder numa fogueira, em 1659.

Em 1872, o romancista Vicente Riva Palacio transformou Lamport num tremendo don juan e lhe deu um companheiro de cela chamado Zorro (raposa). El Zorro era o apelido do padre Hidalgo, arauto e líder da independência, e seria a falsa identidade adotada por Don Diego de la Vega, o justiceiro mascarado que Johnston McCulley, inspirado em Robin Hood e Lamport, criaria nove anos depois da insurreição mexicana. Certo, Don Diego fazia justiça na Califórnia, mas como aquelas terras, ao seu tempo, primeira metade do século 19, pertenciam aos mexicanos, também lá prevaleceu, riscada a lâmina, a marca do Zorro. Q

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